Última Morada
Janeiro 19, 2026
Agora que o blog estava quase a atingir o 35º subscritor, chegou o fim do mundo! O Sapo Blogs vai acabar.
Desde 2007, a colecionar uma média imparável de 1.79 subscritores por ano e acaba assim. Sem mais nem menos, uma notícia que chega com o frio. Nem Nostradamus, os Maias, ou até a Maya, tinham profetizado este início catastrófico de 2026. Custa imaginar o vazio que aí vem, e confesso que doi.
A verdade é que, contra todas as minhas expectativas mais otimistas (zero), a Quinta Dimensão, antes de enfrentar a morte, atingiu a maioridade. São dezanove anos de muita estupidez e absurdo, desde o anormal até ao paranormal, não passando necessariamente por algo normal.
Quando criei este mundo...
... Breve pausa, para inspiração profunda e serena, e sentir-me um semideus, com vontade de descansar ao sétimo dia...
... e agora, porque não consigo suster mais a respiração, regressar à realidade de Sísifo e áquilo que (eventualmente) sou na (eventual) realidade, que será pouco menos que um comum mortal, com mais brancas e menos cabelo, desajeitado e talvez irremediavelmente perdido...
Quando criei este pequeno mundo, foi com o propósito de escrever de mim para mim. Falar sobre o que fosse preciso, com alguém (eu) que me pudesse perceber e compreender. E parecia ter tudo para funcionar, mas - como em quase tudo na minha vida - não funcionou. Nunca entendi, ou vou entender, este gajo!
Contudo, ao escrever, mesmo sem me levar demasiado a sério, consegui desatar nós que apertavam a garganta, encontrar claridade no meio das noites e reunir forças para continuar, mesmo que não soubesse para onde ir. Tive também – é algo que não esqueço e relembro – a sorte de encontrar excelentes pessoas que me deixaram, na generalidade, mensagens esclarecidas, simpáticas e animadoras. Tive o privilégio de, através do que escreveram, entrar nos seus mundos e conhecer um pouco da intimidade de cada uma. Um muito obrigado pelo Vosso tempo e simpatia, pela partilha! Agradeço, também, a todos os que me possam ter insultado, porque, apesar de ter pouco dinheiro e nenhum poder, uma parte de mim é como aqueles empresários japoneses de grande sucesso, que sentem necessidade de pagar a senhoras, que lhes dão chibatadas enquanto os fazem gatinhar como um cão. Também não posso deixar de agradecer a todos os que, nos comentários, me tentaram vender empréstimos bancários, porque sabem que tenho pouco dinheiro e querem ajudar-me.
O fim, para estes lados, não é propriamente uma surpresa. Está escrito, no ADN da natureza, que aquilo que nasce, também morre. Mas esta floresta de blogs é mais que um sitio e tornou-se, ao longo dos anos, algo familiar. Uma família. Um projeto destes não deveria ter permissão para acabar. Só por essa razão, sinto-me compelido a usar uma das frases mais poderosas do mundo dos estereótipos e do universo das inutilidades:
- É o país que temos.
... raio de frase, que não serve para consolar (na realidade não parece servir para nada), mas é criminalmente viciante e agora apetece-me usá-la em tudo o que posso e não posso, como receitas de culinária e afins...
Eu sou um homem humilde, tímido e – posso dizê-lo – solitário. Não sou de falar muito e, normalmente, só falo mais em duas ocasiões: quando estou nervoso, ou então bebi mais do que uma mini, porque aguento pouco álcool. Sinto, cada vez mais, que tenho menos coisas para dizer. Não tenho nada para ensinar e, dentro das minhas limitações, tento selecionar o que me parece verdadeiro, fintar a preguiça ou falta de tempo, e aprender o que posso. Tento questionar e, principalmente, questionar-me. Já sei, também, que por mais que escreva, eu e o mundo seremos sempre enigmáticos. Por essas razões, não vejo motivos suficientes para continuar a escrever e o blog vai terminar quando a plataforma encerrar. Acho bom não ser eu a matá-lo. Prefiro imaginar algo mais heroico e romântico, como o naufrágio do Titanic, em que os músicos continuaram a tocar, enquanto o navio era engolido pelas águas escuras e gélidas do oceano. Mas é uma parte significativa de mim que morre... mais uma. E isso diz-me que talvez eu seja uma vida feita de pedaços de várias mortes. Mas diz-me, também, que tenho de parar por aqui, porque parece que me estou a transformar em zombie e, pelo que vejo nos filmes, fico com a sensação de ser uma transformação, no mínimo, desagradável.
Feito o balanço, acho que escrevi algumas – poucas – coisas razoáveis, mas também muita merda e, se fizesse um livro disto, teria o título de Papel Higiénico. Claro que não o farei, porque seria financeiramente ruinoso e humanamente vergonhoso. Obviamente que nem os textos, nem eu, temos o mínimo de qualidade literária, nem é para isso que servimos. Se foram os erros que me impulsionaram a escrever, como poderia escrever sem eles? Desenhei linhas de palavras, sorrisos e lágrimas. Espero que, enquanto as letras não se esfiapam no esquecimento e alguém quiser fazer mau uso do tempo que lhe sobra, possa, nesta algaraviada, ler empatia e encontrar esperança. Se possível, boa disposição e, assim, talvez tenha valido a pena. Sinto-me triste, mas grato..., mas triste.
Desconheço o futuro, mas não tenho planos para criar uma Sexta Dimensão. Quem sabe, um dia, se tiver oportunidade, mude de opinião. Espero, contudo, que as escritoras e escritores que sigo continuem, independentemente da casa que escolham, a escrever e possam ter a bondade de o partilhar comigo e com o mundo. Será um mundo mais rico e um melhor lugar para se estar.
Um grande bem-haja,
Amigas e Amigos!