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Quinta Dimensão

Passeios noturnos

Fevereiro 09, 2020

Tem noites em que vou passear o cão.

Às vezes por ele, outras vezes por mim.

Hoje, uma parte de mim que achava morta, mordeu-me… e fui passear o cão.

Tem noites em que a morte vive.

Às vezes por ela, outras vezes por mim.

Hoje mordi-me… e fui passear o cão.

 

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Nevoeiro

Agosto 06, 2019

Chegamos à praia, eu e a bicicleta.

Já não somos novos mas fugitivos de Cronos.

É cedo e uma cortina de nevoeiro cerrado faz-me questionar se estou acordado.

Contemplo o mar: cinzento e sereno.

Um vem e vai de pequenas ondas que cantam como sereias.

Deixo-me seduzir.

A espuma acaricia a areia enquanto me tenta alcançar.

Tudo é simples e, no entanto, tão belo.

Deixo-me estar.

As pegadas unem-se aos passos que não dei.

Deixo-me ir.

A maresia e o orvalho trespassam a máscara e acariciam-me o rosto.

Sinto a alma e, nesse momento, dou por mim menos desacompanhado.

Deixo o ser e deixo-me ser.

Encontro-me.

Mas, com tanto nevoeiro, o mais certo é perder-me.

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Nunca Caminhamos Sós

Julho 20, 2019

Nunca caminhamos sós.

Quando, com a minha solidão, serpenteio pelas ruelas da cidade.

Quando, corcunda, carrego a sombra pelos trilhos apagados de uma qualquer floresta.

Quando o sono me transporta até à orla do insondável.

Quando uma lágrima cede à gravidade.

Nunca caminhamos sós.

Os nossos fantasmas acompanham-nos.

 

ejail

Sombra Lunar

Abril 11, 2012

Parece-me, de noite, ver alguém na Lua,

solitário e prisioneiro do seu lado oculto.

Parece navegar as cinzas numa falua

e arrastar-se no sedimento como um vulto.

 

Existirão seres extra-terrestres,

ou será apenas a névoa do meu olhar cansado?

Talvez só chamando cientistas e mestres,

para vencer as crenças e os dogmas do passado.

 

O mais certo é eu estar aluado,

desgostoso pela gravidade do espaço.

Triste e despedaçado por não ser amado

e ansioso por me deitar num regaço.

 

Mas não!

Não estou louco nem estafado,

muito embora haja quem diz o contrário.

É que não é fácil ludibriar o fado:

lá em cima só eu e este pobre diário.

divãgações cronodesmedidas

Agosto 04, 2010

(imagem retirada da internet)

 

O meu relógio procura imitar um círculo perfeito, andando, sempre, para a frente, mesmo quando já está, outra vez, a voltar para trás. Não regula bem. Percorre um segmento de tempo: a exacta quantidade de tempo correspondente ao intervalo entre o seu nascimento e consequente, inevitável, extinção. Corre, passo a passo, com fé, com confiança, com paciência, com determinação na busca da constância. Quase equânime.

 

Mas o tempo é como uma roda de hamster. É uma prisão e uma arma de destruição maciça que mata com o desgaste da erosão. Não mata o Todo mas mata tudo. Até os ideais, que nada mais são do que modas com outro nome. O tempo passa por tudo e tudo aquilo que é passado pelo tempo é isso mesmo: passado – passado: devorador insaciável de presentes, de presente.

O arco do tempo é, ao que a minha vista alcança, infinito. O seu movimento é perpétuo. A sua obra é perene e num estranho contra-senso inacabada, acabando, contudo, com tudo. Tudo abarca e só ele é eterno. Tudo o mais é seu interno. Não o tocamos. Ele toca-nos e como ele nos toca.

Tudo é barro nas mãos do tempo e aquilo que começa é barro daquilo que acabou e aquilo que acabou é barro daquilo que noutro tempo começou.

 

Mas é para a frente que se faz o caminho... um caminho de barro, embora.

O meu relógio indica... não importa! Que importa o que diz o relógio? Talvez deva começar a ler os tempos e não os relógios. É, talvez, tempo de vender (ou dar) um relógio.

O meu relógio procura imitar um círculo perfeito, mas está longe de ser uma obra perfeita. É apenas um objecto que persegue algo maior e intangível. É preciso mas até que ponto preciso da sua precisão. São horas de perguntar o tempo e não tempo de perguntar as horas!

 

E sinto o tempo passar através dos átomos que compõem a minha carne. Sinto o tempo trespassar os fotões e a matéria negra que compõem a minha alma.

Sinto-me um ponto, infinitamente pequeno, num plano infinitamente grande. Sinto-me uma partícula de tempo e matéria, um instante relativo numa eternidade absoluta.

Não sou daqueles que se sentem grandes num mundo pequeno. Não sou daqueles que se sentem pequenos num mundo grande. Não sou daqueles que se sentem.

Sou daqueles que não sabem o que sentem. Sou daqueles que não sabem as respostas. Sou daqueles que desconhecem as perguntas. Sou daqueles que o tempo vai enterrar no esquecimento.

Sou daqueles que precisa de acreditar em Deus para sentir a segurança que a queda contínua num abismo não pode proporcionar. Sou daqueles que, de forma hipócrita, fala para o céu em busca de uma luz quando o olhar escurece. Sou este execrável. Sou este homem que se consome. Este homem que o tempo há-de consumir.

 

A Todos Que Passaram Pela Quinta Dimensão

Junho 10, 2009

 

As palavras não são sentimentos,
não os traduzem.
Porque, sempre que os tentam traduzir, algo se perde.
E, quando se fala de sentimentos, se algo se perde, tudo se perde.
As palavras não são e não traduzem sentimentos!
Podem, no entanto, toca-los.
Como um piano pode tocar uma melodia
e como uma melodia pode tocar a alma.
Como gotas de chuva podem tocar o rosto
e como um rosto molhado pode inquietar a alma.
Ou...
Como o vento persistente pode tocar um solo
e o solo pode tocar o indivíduo, afastando-o da multidão.
As palavras são construções do homem
e os sentimentos, desconstruções da humanidade.
As palavras são pontos do mapa
e os sentimentos pontuações do terreno.
Se algo é:
as palavras são o que são
e os sentimentos são o que são.
No que me diz respeito: sinto muito, por escrever.
Mas também escrevo por sentir muito.
Se calhar não me diz respeito.
Se calhar não sei, tão-pouco, quem sou.
Afinal, quem somos nós?
Não respondo com palavras.
Pergunto-me com sentimento!

 

ejail.

Jogadas Mentais

Fevereiro 21, 2008

- Ando como que a jogar xadrez com o meu blog.

Não! É mais grave ainda…

- Ando como que a jogar xadrez com a minha vida e tenho, neste estranho jogo de Xadrez mental, um adversário que, a ser, será um Ser que são muitos Seres.

 (Imagem retirada da Internet)

Como um jogador, que move cautelosamente as peças no tabuleiro, troco as ideias de lugar na densidade dos pensamentos. São ideias pesadas, que se esfumam, numa mistura de liga pesarosa e crepitante. São ânsias que procuram saltar para além das barreiras do medo e desejos que lutam para se materializarem num mundo de dúvidas e incerteza. São frustrações que, uma-a-uma, o passar do tempo parece ter calcinado no espírito. São rebeldias que agora são conformismos, fazendo lembrar outros anjos que agora são demónios diluídos nos remorsos. É um espírito quebrado pelas limitações do corpo e da mente.

Será uma estupidez tão grande dizer que me sinto prisioneiro de mim mesmo?

Como o vento que não se vê directamente mas que despenteia os cabelos, o tempo lavra com rudeza as feições nuas do meu rosto. O tempo: essa entidade que se coloca por direito próprio, ou por simples arrogância, acima do banal da tridimensionalidade mundana. O imortal assassinando, com relativa paciência, tudo o que é mortal. Desgastando a vida até ao pó. Mudando-me por fora e alterando-me por dentro. O tempo: conselheiro, agitador, mensageiro que me traz (e me leva) sentimentos e pensamentos. Que me faz, nesta hora, questionar: Como é possível estar vivo e sentir que não vivi? Como é possível sentir que não vivo? Como posso viver sentindo, no íntimo, que não saberei viver?

Talvez a resposta seja, não sei, esperança… Porque a esperança é como a cenoura na ponta do nariz do cavalo, que o faz andar em frente na tentativa vã de lhe deitar o dente. Talvez a resposta venha com o tempo. Há cavalos que conseguem… uns mais cedo, outros mais tarde…

 

Uma boa tarde!

ejail (afectado por uma gripe vírica).

Não vou estar por aqui mas vou andar por aí!

Fevereiro 06, 2008

Costumes, tradições e ritos, seguidos e quebrados de forma ridícula: Emprego, desemprego;

Riqueza, pobreza;

Ladrões que roubam, ladrões que são roubados;

Homens que controlam, desesperados que se descontrolam;

Políticos que ganham, povo que perde;

Promessas que se fazem, promessas que se desfazem;

Polícias que prendem, polícias que são presos;

Médicos que curam, médicos que matam;

Professores que ensinam, professores que assassinam;

Padres que pregam, padres que violam;

Pastores que evangelizam, pastores que engordam;

Fetos que nascem, fetos que morrem;

Almas que se acham, almas que se perdem;

Deus que ajuda, Deus que castiga e se esquece;

Diabo que ama e diabo que depois engana;

Árvores que crescem, árvores que ardem às mãos da inquisição;

Pequeno-almoço, almoço e jantar… e a fome que continua a matar;

SMS, MMS, o contacto que arrefece;

– Merda: isto não tem fim e continua a não fazer muito sentido –

Tempo que sobra, tempo que falta;

Ondas que levam, ondas que trazem;

Cascatas a correr, lagos a apodrecer;

Sapos que se engolem, sapos que se vomitam;

Medo que domina, medo que extermina;

Lápis que escrevem, borrachas que apagam;

Olhos que se cruzam, olhos que não se podem ver;

Sentimentos que se amam, sentimentos que se odeiam;

Altruísmo, egoísmo;

Mãos quentes, mãos frias, mãos de pessoas;

Línguas que ardem, línguas que queimam;

Pénis que entram, pénis que saem;

Lábios presentes, lábios ausentes;

Ataques de coração, ataques ao coração;

Veneno, antídoto;

Vontade de viver, vontade de morrer;

Brain storming, human desert;

Histórias contadas, histórias inacabadas;

Raios partam tudo, raios partam nada.

A vida é uma espécie de morte adiada.

É esta a nossa natureza e na nossa natureza nada se cria, nada se perde, tudo se estraga.

Em suma, se não estou enganado, somos todos ridículos.

 
 
 

Ando com e sem vontade de escrever.

Vai-se lá perceber…

 

“Não vou estar por aqui mas vou andar por aí!” – Santana Lopes.

 

Dúvidas razoáveis…

Atentamente,

ejail.

A Minha Palavra

Julho 26, 2007

Há uns tempos atrás (muitos) escrevi um texto abstracto:
 
A vida assume um sem número de facetas. Pode ser comparada a tudo e nada se compara a ela. Parece, por vezes, um grande dicionário, maior que o mundo e infinitamente grande; maior que o Universo. Nesse dicionário, cheio de palavras e de significados, eu procuro uma só palavra. Existem muitas e são mais que os números para as contar. Umas simples e bonitas, outras formais e complicadas, mansas ou severas, quentes ou frias e indiferentes. Procuro uma só. Nunca a escutei, nem li e nunca, tão-pouco, ouvi falar acerca dela. Não a conheço, mas sei que é a mais deslumbrante desse dicionário. Não vou vender a minha alma a uma outra qualquer palavra. Ela só aceita ser comprada e resgatada, da sua árdua e solitária viagem, pela mais bela junção de letras que o caos do universo conseguiu, de forma divina, construir. Não receies, pois não vou cessar a busca. Afinal sou um sonhador e os sonhadores não sabem quando parar de sonhar.
 
Hoje quero concretizar esse texto:
 
Creio ter encontrado a palavra. A palavra formada pela mais bela junção de letras que o caos do universo conseguiu, de forma divina, construir. A palavra: Ana.
 

Bom Demais Para Ser Verdade

Julho 17, 2007

Coimbra: cidade de despedidas encantadas. Na sua complexa rede de estradas e estreitas ruelas, circulam um pequeno sem-número de autocarros. Movem-se para os lados, para trás e para diante, sem nunca se afastarem muito de um qualquer ponto de gravidade imaginário. São uma espécie de pêndulos urbanos. São como bestas tecnológicas que, aprisionadas, ora engolem os seres humanos, ora os cospem. Tudo é feito com uma extrema rapidez e frieza mecânicas e, as poucas excepções que ocorrem, são quando as presas, quase sempre amorfas e resignadas, discutem entre si para ver quem vai primeiro.
 
Um desses autocarros tem uma particularidade. Aparentemente é um veículo de transporte de passageiros normal: não muito velho, não muito novo. Tem bancos que foram construídos na tentativa de encontrar um compromisso entre o conforto, a usabilidade e a economia. Guincha e oscila, como muitos outros, nas curvas mais apertadas e não trepida menos quando a estrada é de paralelo. Transporta renegados de meia-idade, de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Carrega os velhos, com passes sociais, a quem a sociedade já há muito retirou a esperança e leva os novos para a escola que aguarda para os formatar. Os jovens são inocentes e deixam-se, facilmente, iludir pela esperança e modas passageiras. O autocarro transporta pobres: homens e mulheres, crianças e pedófilos, inocentes, ladrões e assassinos. Ele não escolhe o que lhe dão a comer, apenas come o que lhe é servido. Nele são transportados seres à deriva numa sociedade de castas de falsidade. É um autocarro igual a tantos outros, apenas tem uma singular particularidade que só a mim diz respeito.
Um destes dias, uma qualquer empresa sediada no Porto, vai comprar este autocarro. Alguém o há-de levar para a oficina e dar-lhe um banho de tinta. Alguém o há-de pintar, numa estufa própria, com as cores da nova empresa. Depois vai ser restaurado: o chão, comido pelo arrastar dos passos pesados dos passageiros, condenados com grilhões a vidas efémeras e repetitivas; os assentos encardidos de transpiração mundana; os graffitis com mensagens de alguém que amava e agora, se calhar, até já odeia; o sebo das mãos ainda agarradas aos varões; os fantasmas de Coimbra. Tudo tem de ser limpo e renovado.
 
Um motorista vai ser contratado para conduzir o autocarro. Vai ser colocado um anúncio no jornal e muitos desempregados e desgraçados vão concorrer. O salário não é grande coisa mas, para muitos, vai ser a sua última oportunidade. À medida que várias fazes da selecção vão sendo progressivamente queimadas, o número de candidatos vai diminuindo até que, por fim, um deles será o escolhido. Neste caso em particular não vai haver cunha. O motorista que será escolhido provará ser o melhor. A empresa irá reunir referências junto de antigos empregadores e, todos eles, abonarão a favor do candidato. Vai, posteriormente, iniciar uma acção de formação profissional teórica e prática. Um motorista da casa, mais experiente, vai, depois disso, mostrar-lhe o percurso da carreira que lhe será designada e explicar-lhe as manhas do trânsito local. Tudo tem de ser perfeito. Chega o dia e o autocarro e o motorista estão prontos para saírem à rua.
 
Durante cerca de seis meses e quinze dias tudo parecerá normal. Mas não no dia a seguir. Nesse dia em particular, esse motorista em particular, com esse autocarro em particular, vai sair da garagem e, como de costume, vai encaminhar-se para o respectivo giro. Porém, uma velha furgoneta, em infracção de velocidade excessiva, vai efectuar uma manobra arriscada e colidir com o retrovisor esquerdo do autocarro. A colisão não será suficientemente forte para partir o espelho mas vai chegar para desalinhar o mecanismo de suporte. Na confusão que se seguirá, o infractor vai fugir, não dando tempo ao assustado motorista de registar a matrícula. Este, por sua vez, pegará no telemóvel e ligará para os escritórios da empresa, para o sector das escalas, contando o sucedido. Vão chegar à conclusão que não há nenhum autocarro para efectuar a substituição e, como o retrovisor apenas está ligeiramente desalinhado, o motorista pode seguir viagem. No final do dia, quando o autocarro recolher, os serviços da oficina farão a reparação. O motorista retomará a marcha.
 
Algumas horas depois, o autocarro irá parar, como de costume, numa paragem. As pessoas, como de costume, vão sair e vão entrar, insensíveis à rotina. Sairão e entrarão, como habitualmente, todos os dias úteis - ou todos os dias inúteis. Sairão e entrarão como se, de alguma forma, a humanidade quisesse foder aquele autocarro. O motorista, não vendo qualquer veículo pelo retrovisor desalinhado, dará sinal de mudança de direcção para a esquerda e retomará a marcha. De traz virá um condutor mais apressado e distraído, que não se vai aperceber e, deixando cair o telemóvel, apenas conseguirá pressionar a buzina sem se conseguir desviar e sem conseguir abrandar em tempo útil. Nesse instante, o motorista do autocarro, ouvindo a buzina e apercebendo-se do perigo de colisão iminente, guinará o autocarro, num reflexo irreflectido, para a direita, para cima de uma passadeira. Uma pessoa vai ser colhida…
 
Vejo-me deitado sobre um zebrado. O céu parece cinzento mas, antes da colisão, parecia-me azul. Talvez, o impacto contundente ou a sensação de uma severa fatalidade, tenham afectado os meus olhos e me tenham levado as cores. Apercebo-me que não é só o céu que não tem cores. As pessoas à volta também estão descoloridas. Sinto um arrepio constante e, estranhamente, começo a desaprender a respiração e a sentir uma repentina falta de forças. Sinto a cabeça descair para o lado, sem que tenha poder para a contrariar, e começo a ver imagens, pouco nítidas e antigas, a substituírem as actuais. Sinto os olhos fecharem-se e, apesar disso, cada vez mais, vejo mais imagens. Parecem ser coisas do passado, imagens que já nem me lembrava de ter guardado, imagens de coisas de que não consigo ter a certeza se realmente aconteceram. Tudo parece ter atingido um estranho silêncio sepulcral. É quase espiritual. Mas, nessa falta de sons, uma voz vai-se fazendo ouvir. Uma voz surda que se confunde com o vácuo. Uma voz que, gradualmente, vai ganhando protagonismo face à estática do silencio. Uma voz que soa cada vez mais alto e que, cada vez mais, parece uma gargalhada e um grito irado. Uma voz que diz: “Seres feliz… Era bom demais para ser verdade!”
 
 
Tenho que falar da Ana e não consigo. Porque é uma pessoa única e especial. Alguém que me ensina e ajuda a derrotar o medo de viver. Alguém que surgiu na minha vida de uma forma tão profunda, que parece bom demais para ser verdade. É alguém que me faz olhar para os dois lados, quando atravesso uma estrada. Alguém que não quero perder por que me faz ter vontade de viver, que me faz ter vontade de amar. Alguém que me faz ter um peculiar cuidado com os autocarros. ;-) É alguém que me faz acordar com um sorriso nos lábios, ao invés de uma lágrima no rosto. É alguém que veio trazer ânimo e sentido à minha vida. Alguém que aceita e compreende os meus medos, e me conforta. Alguém que deixa que eu faça o mesmo por ela. É alguém em quem eu começo a confiar e alguém que vai confiando cada vez mais em mim. Uma pessoa bonita que me desperta o desejo e uma pessoa bonita que me desperta a espiritualidade. Não encontro palavras para falar desta mulher. Teriam de ser palavras ainda não inventadas. Palavras virgens, criadas unicamente para serem usadas nesta magnifica pessoa. Estou de beicinho por ela. Quem diria? Logo eu…
 
Ana, eu amo-te!
 
 
Atentamente,
José.

Correntes Invisíveis

Julho 03, 2007

(imagem retirada da internet)

 
Meio da tarde. O tempo está deprimido: cinzento, tal qual o meu casaco. No alto planam algumas gaivotas. Aproveitam correntes de rios de vento que, para mim, são invisíveis mas, para as aves, marujos experientes, são dádivas que não escapam ao instinto. Parecem voar sem destino, sem mapa e sem instrumentos, apenas pelo prazer de navegar os céus.
 
Atentamente,
ejail.

Poeta Maluco

Julho 01, 2007

Era uma vez um poeta: feiticeiro das palavras e mágico dos sentimentos. Um mau escritor que, um dia, perdeu as rimas. Trazia-as, algures espalhadas dentro dos bolsos, juntas com os trocos.
 
Um poeta não sabe nada, está sempre a aprender. Deita-se com a luz das estrelas e levanta-se com o chilrear dos pássaros. Não tem idade: não é velho, nem é novo. Não é nada. Existe apenas quando quer, quando sente o dever de existir - embora, às vezes, queira existir e não saiba como. É algo que não pode ser: desaparece no meio de si e tenta aparecer no seio dos outros. Mas, isso, é só porque é um solitário. Não é cobarde, mas chora como uma criança e ri como um garoto - embora, ultimamente, não consiga encontrar motivos para sorrir. É um puto das ruas, descalço e de cara suja. Um renegado de alma lavada, de alma incompreendida.
(imagem retirada da internet)
A estrada, sabe-o bem, não foi feita para ser percorrida. Foi construída para ser estudada. Evita caminhar por ruas muito percorridas. O caminho foi calcetado para jogar à bola e os campos para dançarem ao sabor dos caprichos do vento. Uma pedra solta é para ser lançada ao mar, ou ao rio. Não importa para onde, desde que seja lançada para o mais longe possível, desde que seja arremessada, com todas as forças, para o âmago do infinito. A chuva são lágrimas de poetas, irmãos que pereceram nas inúmeras batalhas, e se fundiram no Absoluto. O Sol é, por si só, um magnífico poema. Um poeta compreende o ciclo da árvore: a árvore, que no Verão traz a sombra, é a mesma que no Outono dá os versos. Versos: estrofes secas, outrora viçosas, que tombam na manta morta como folhas gastas pelo uso do tempo. A Primavera é a vida em flor e o Inverno o seu fiel cobertor. O frio e o calor são as suas roupagens: um poeta não é morno - embora possa estar adormecido.
 
De dia, ou de noite, há sempre um poeta acordado e pronto a sonhar.
 
Era uma vez um poeta que, por algum tempo, vai desaparecer. Um sofrível escritor que se vai ausentar dentro de si. Talvez só por algumas horas, ou alguns dias…
 
Atentamente,
ejail.

Metade de Oswaldo Montenegro

Junho 30, 2007

Para todos os que têm sede: sede de coragem, sede de ânimo, sede de alegria. Para todos os que têm sede de contacto humano, sede de Deus, sede de amor. A poesia é uma conselheira e uma confidente, sempre presente. É na poesia que, muitas vezes, encontro forças para me retrair. É na poesia que, muitas vezes, encontro forças para dar o próximo passo. É na poesia que, muitas vezes, encontro coragem para suportar a queda. É na poesia que, muitas vezes, encontro coragem para me levantar e forças para caminhar de novo. É na poesia que, muitas vezes, me encontro.
 
Já muita gente o conhece, por certo, mas há poemas que são eternos e podem ser lidos todos os dias. Hoje enriqueço o meu blog com o poema “Metade”, de Oswaldo Montenegro:
 
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
 
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
 
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
 
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
 
Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo
 
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
E a outra metade um vulcão.
 
Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui
E a outra metade não sei
 
Que não seja preciso mais que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço
 
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é a canção
 
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Coração de Pedra

Junho 29, 2007

Continuo sem conseguir falar. Continuo fechado. Talvez, numa espécie de casulo, em metamorfose: ashrayaparavrtti. Escrevi este humilde conto, num dia em que a esperança parecia escassear...
(imagem retirada da internet)
 
Coração de Pedra
 
Agora volto às rimas da melancolia. Os sonhos são como o canto das sereias e eu não me consigo deter. Chamam por mim dia e noite e deixo-me seduzir, acabando, quase sempre, por acordar num poço de lágrimas:
 
– De onde vem esta água salgada? – Pergunto.
– Foste à fonte do amor, encher o coração, mas no regresso quebraste-o e verteste todas as suas lágrimas. – Responde a tristeza.
– Por que não me concedes outro coração mais forte e permites que o volte a encher na mesma fonte? – Replico, quase ansioso.
Mas, de imediato, o mar encapela-se e as sereias irrompem na conversa:
Não! Reúne todos os pedaços, cola-os e volta à fonte, mas a maldição não te abandonará! No regresso, de novo, o partirás.
– Porque me fazem isso? – Pergunto já inconsolável e em desespero.
– Para que não fiques como eu. – Responde-me uma pedra. – Uma pedra não chora, mas também não ri. Não sofre mas também não sente. Junta sempre com paciência e mestria todos os pedaços quebrados do teu coração. Um dia terás força para vencer o canto das sereias e enganar a tristeza. Eu sou uma pedra e as pedras existem há milhares de anos, e sabem, portanto, do que falam.
 
Então penso para mim:
 
“As pedras são fortes e resistem, com bravura, ao passar do tempo. Sempre fui um apreciador das pedras, pois imagino que, tendo elas vivido tantos milhares de anos e presenciado tantos acontecimentos, sejam sábias e excelentes contadoras de histórias. É preciso saber escutá-las. Falam, melhor do que ninguém, nos hiatos do silêncio. Só espero ser homem bastante e ter forças para seguir o conselho da pedra.”
 
E assim se começa a construção… de um coração de pedra.
 
Atentamente,
ejail.

Ănima

Junho 27, 2007

(imagem retirada da internet)
Nasci no Porto e, nas minhas veias, corre sangue com granito. Carmesim, escurecido com cinza deslavada: é este o líquido que me sustém o esqueleto de pé. Respiro pesadamente como se, a cada acção de inspirar, correspondesse o acto de erguer uma fraga. É uma falta de ar que advém da poluição dos pensamentos estéreis que, em mim, se esfumam sem nunca se materializarem. É uma respiração comprimida que se aperta contra o peito, com uma veemência e um vigor desproporcionados. Um aperto voraz, contra um peito disforme que oculta um coração maciço de pedra-pomes. Este órgão estranho, monolítico — que um dia foi um pedaço de lava, de magma incandescente e pleno de actividade e de vida — é hoje um velho ajuntamento, disperso e compacto, de cinzas carbonizadas. Tudo em mim, portuense, parece desprovido de vitalidade. Tudo parece disposto num pós-incêndio: cinzento, desordenado e constante. Tudo em mim parece um bando de formas indissociáveis: uma argamassa insípida e de monótona destruição. Tudo, neste instante de melancolia, parece morto… excepto:
 
a Alma.

Sinto-me 1 Fantasma

Junho 25, 2007

Com uma crescente frequência, dou por mim prostrado numa introspecção leviana. Surge a qualquer hora do dia - e da noite -, quando menos a espero. São indagações profundas e, no entanto, quase sempre fúteis. Nada têm de profícuo. Aparecem, sob a forma de passeios, em passos demorados, pelos labirintos do limbo enevoado que separa o real e a quimera. Percorro-me até às entranhas, numa tentativa vã de responder a questões que me devoram como piranhas. Esta introspecção, que corrompe a pureza do pensamento e provoca a flacidez dos músculos, deixa o corpo e a mente num estado letárgico, quase catatónico. Liberta lágrimas mudas - saídas sabe-se lá de onde - que caem frias, pesadas e barulhentas, como correntes de um estranho cativeiro de solidão perene. É um estado de sítio: em que os pensamentos e os sentimentos se rebelam contra o seu criador. Nesse instante sinto-me, tão-só, um estrangeiro para com os átomos que me compõem: um pária.
(imagem retirada da internet)
Às vezes recebo uns emails que falam de amizade e de amor. São, por norma, escritos com muito sentimento e, nalguns casos, com elegância. No fim, porém, trazem uma espécie de feitiço: se, após o ler, eu não o reenviar a um determinado número de pessoas, vou ser infeliz durante um outro determinado número de anos. Eu já recebi muitos emails desses e, às vezes, leio-os. Mas nunca os reenvio…
 
Quando me sinto magoado, fecho-me. Fecho-me muito. Mas, hoje, apenas hoje, abro uma pequena fresta para poder passar uma só pergunta: quem me leva os meus fantasmas?
 
Atentamente,
José.

Sinto Absinto

Junho 20, 2007

Hoje apetece-me morrer. Mas, tirando isso, estou óptimo. Não é que me apeteça suicidar nem coisa do género. O suicídio, por si só, parece-me ser demasiado abstracto e elanguescente para acalmar tanta dor. Está, portanto, fora de questão e terá de ser algo bem mais contundente. É difícil, no entanto, quantificar a dor que sinto. Mas, a Matemática, é algo de extraordinário e diz que a definição de medir é, nada mais, que comparar. Portanto, para ser possível perceber o quanto é anedótico o suicídio, como analgésico para a agonia que me desmembra, basta dizer que é como tomar um ramo de salsa para aliviar a super-dor da amputação selvática do coração. Bendita Matemática, que é uma luz clarividente que contrasta com a cegueira da humanidade. Mas, apesar da ajuda da Matemática, o problema de fundo persiste: encontrar um processo mais mórbido que o suicídio.
Chego ao fim do dia cansado. Faço um grande esforço, a toda a hora, para me manter vivo. E, depois, chega a noite e as coisas não melhoram. Pouso, pesarosamente, a cabeça estéril sobre a travesseira curada pelo sal das lágrimas e cerro os olhos. Tento adormecer mas, o único estado que consigo atingir, é sentir-me definhar, a morrer. Porém, na manhã seguinte, acabo sempre magoado por mais um despertar. É um ciclo solitário, escuro e asmático. De uma humidade espiritual e fantasmagórica que deforma os ossos. Não são sentimentos de circunstância, há razões para tanta angústia! Genéticas? Também, com certeza. Mas não só:
Nunca amei tanto alguém, como aquela mulher. E nunca alguém me fez tão mal como ela. Quando menos espero, eis que a crueldade gélida do seu machado me dilacera, uma vez mais, o peito flácido. Nunca mais vou conseguir confiar e nunca mais vou conseguir amar alguém. Nunca mais! Amputaram-me o coração e o que bate no lado esquerdo da cavidade torácica é apenas medo. Medo do mais puro, do mais vergonhoso, do mais cobarde. Um medo constante de voltar a sofrer uma dor que não suporto. Não consigo compreender o porquê de tanto mal, para uma pessoa que lhe fez tão bem? Hoje precisava dos braços emprestados de alguém. Precisava de uma mulher que me sussurrasse ao ouvido que não sou lixo, pois é como me sinto. Mas isso já são devaneios e é importante manter os pés na terra, e não perder a noção da realidade. Ainda assim, nem tudo está perdido porque, pelo menos, em todo este processo, consegui descobrir algo muito pior que o suicídio: o amor.
(imagem retirada da internet)
Atentamente,
José.

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