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Quinta Dimensão

Exílio

Abril 30, 2021

20191217124701247.jpg

 

Tanta vida sem digestão,

tanta morte gerada por congestão.

O cansaço de mastigar as mesmas rimas,

endurecidas por tão estranhas enzimas.

 

Monólogos enferrujados e pesados como grilhões,

pensamentos estéreis e questões aos milhões.

O ar pernicioso e demasiado rarefeito,

adoecido por uma angústia que aperta no peito.

 

Estranha forma de vulto,

que se contorce no seio do tumulto.

Um espírito demasiado elanguescente,

aos olhos das cercanias, ultra-transparente.

Mas como (ou para quê) reflectir a luz e aparecer,

se os dias deste mundo não param de anoitecer?

Guerra Individual

Março 29, 2021

Geres.jpg

Este nevoeiro dos dias

que oculta cordilheiras com outras vias.

Este fumo de confusão

que envenena a mente com desilusão.

Este manto de escuridão

que comprime a alma na companhia da solidão.

Este inferno de maldição,

esta adaga no meio do coração,

não significa - de todo - a minha rendição.

Bicho da Sede

Março 17, 2021

web.png

Agora percebo:

 

Ninguém me ama,

 

não mais do que me odeio.

 

Um velho mancebo,

 

que se apaga e jamais inflama.

 

Um calhau sem matéria no meio.

 

 

 

Agora percebo:

 

Ninguém me liberta,

 

não mais do que me prendo.

 

Este veneno que bebo,

 

que me afaga no seio da morte certa.

 

Um Ser que não é mas vai parecendo.

 

 

 

Agora percebo:

 

Ninguém me elucida,

 

não mais do que me confundo.

 

As orações ao Verbo,

 

que nunca ressuscitaram vida.

 

Um bicho do fim do mundo.

Nua e voluptuosa, parece perdida.

Março 16, 2021

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Algures, nestes tempos em que sonho e realidade se confundem, perdi a alma.

 

Escrevo quando me seca a língua e humedecem os olhos.

 

Quando sinto sede de algo que não sei.

 

Com letras trocadas, palavras baratas e frases desconexas.

 

Tenho uma queda natural para o erro.

 

Mas é o erro que me faz e é o erro que me desfaz.

 

Não há mais. É tudo o que sou.

 

São cartas que dirijo ao vazio da solidão.

 

E, hoje, não aguardo pelos seus ecos.

 

Hoje não aguardo pelos seus ecos.

 

Hoje não aguardo pelos seus ecos.

Existir sem Ser

Fevereiro 01, 2021

Ser.png

A alma e os seus labirintos:
calçadas sombrias de um outro mundo.
Estranhos e lúgubres infinitos,
ecos de um poço sem fundo.

Grito-me com todos as forças
e silencio-me com todas as fraquezas.
Há muito que empurro um saco de liças,
pleno de farsas e vazio de certezas.

Ao longe uma mulher abstrata.
Nua e voluptuosa, parece perdida.
Afasta-se nas ondas de um sonho de prata
e, quanto mais distante, maior a ferida.

(Vi)rus

Janeiro 18, 2021

covid.jpg

Quantas vezes me senti pequeno para mudar o mundo?
Mas o mundo mudou. Por algo, tão minúsculo, que não vejo.
Agora, o que não vejo, faz-me ver a minha tão grande cegueira:
Sou pequeno quando abdico de crescer.

Memo

Janeiro 08, 2021

Memo.png

As memórias são sombras da sombra do que fomos.

São vultos que se esfumam na bruma do esquecimento.

E, por cada memória que guardei, quantas perdi?

Algumas escondem-se de mim. Outras, escondo-me delas.

Algumas enganam-me.

Lembro-me de, em criança, escalar uma estátua de bronze.

Não compreendia o seu significado e não a respeitava.

Lembranças de infância, cada vez mais baças e confusas.

Lembranças que vou esquecendo. Pedaços de mim que perdi.

E, com tantas perdas, já se faz tarde sem que me descubra, mas...

Se me lembrasse de quem sou, seria eu.

Hoje sinto-me uma liga de cobre estranho.

Longe de ser herói, sinto-me perdido na estátua:

O Soldado Desconhecido.

Espelho, espelho meu...

Dezembro 22, 2020

paterson.jpg

Um dia vi um filme sobre um homem comum que escrevia poemas. Depositava-os num pequeno caderno. Quase no fim do filme, perplexo, encontrou as folhas do caderno desfeitas numa infinidade de pedaços irrecuperáveis. Metaforicamente como se um espelho, com a sua personalidade, se tivesse desfeito à sua frente. Um poema é mais que uma memória, uma observação ou um desejo. É, possivelmente, um pedaço da alma de quem o gera.

Sei, empiricamente, que onde falta alma sobra escuridão e vazio. Sei e sinto, concretamente, essa escuridão. Tantas vezes me vejo espelhado em pedaços irrecuperáveis.

Como eu, também um dia, os meus poemas se vão partir. A alma semiperdida diluir-se-á, com tantas outras, num mar de esquecimento e, sem misericórdia, o tempo apagará todas estas linhas. Contudo nada disso importa, pois apenas escrevo para me sentir inteiro e, tudo isto, nas entrelinhas.

Passeios noturnos

Fevereiro 09, 2020

Tem noites em que vou passear o cão.

Às vezes por ele, outras vezes por mim.

Hoje, uma parte de mim que achava morta, mordeu-me… e fui passear o cão.

Tem noites em que a morte vive.

Às vezes por ela, outras vezes por mim.

Hoje mordi-me… e fui passear o cão.

 

cao.png

 

Voltas

Dezembro 18, 2019

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Volto a ver as voltas que a vida dá

e as voltas que damos na vida.

Entre voltas e revoltas,

passam momentos que não voltam.

Nesta infinidade de voltas,

volto a ver que não há volta a dar, senão voltar.

Nevoeiro

Agosto 06, 2019

Chegamos à praia, eu e a bicicleta.

Já não somos novos mas fugitivos de Cronos.

É cedo e uma cortina de nevoeiro cerrado faz-me questionar se estou acordado.

Contemplo o mar: cinzento e sereno.

Um vem e vai de pequenas ondas que cantam como sereias.

Deixo-me seduzir.

A espuma acaricia a areia enquanto me tenta alcançar.

Tudo é simples e, no entanto, tão belo.

Deixo-me estar.

As pegadas unem-se aos passos que não dei.

Deixo-me ir.

A maresia e o orvalho trespassam a máscara e acariciam-me o rosto.

Sinto a alma e, nesse momento, dou por mim menos desacompanhado.

Deixo o ser e deixo-me ser.

Encontro-me.

Mas, com tanto nevoeiro, o mais certo é perder-me.

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Nunca Caminhamos Sós

Julho 20, 2019

Nunca caminhamos sós.

Quando, com a minha solidão, serpenteio pelas ruelas da cidade.

Quando, corcunda, carrego a sombra pelos trilhos apagados de uma qualquer floresta.

Quando o sono me transporta até à orla do insondável.

Quando uma lágrima cede à gravidade.

Nunca caminhamos sós.

Os nossos fantasmas acompanham-nos.

 

ejail

Sombra Lunar

Abril 11, 2012

Parece-me, de noite, ver alguém na Lua,

solitário e prisioneiro do seu lado oculto.

Parece navegar as cinzas numa falua

e arrastar-se no sedimento como um vulto.

 

Existirão seres extra-terrestres,

ou será apenas a névoa do meu olhar cansado?

Talvez só chamando cientistas e mestres,

para vencer as crenças e os dogmas do passado.

 

O mais certo é eu estar aluado,

desgostoso pela gravidade do espaço.

Triste e despedaçado por não ser amado

e ansioso por me deitar num regaço.

 

Mas não!

Não estou louco nem estafado,

muito embora haja quem diz o contrário.

É que não é fácil ludibriar o fado:

lá em cima só eu e este pobre diário.

A Procura de Um Sentido

Maio 30, 2011

 

(imagem retirada da internet)

 

 

Um sentido para cinco.
Cinco ou mais, talvez...
Vistas condensadas num olhar profundo,
do extremo celestial à solidão palpável do centro do mundo.
Um pensamento que condenso e trinco,
em silêncio, uma e outra vez.
Decantada a fragrância a que, em tantos dias, fui alérgico:
de que serve o tudo - ou o nada -, num espírito pentaplégico.

 

ejail (2011.05.30)

O Martemático

Agosto 21, 2010

Hoje, por causa de uma conversa, lembrei-me desta relíquia...

 

 

 

 

Do Ábaco ao computador actual, passando por Blaise Pascal;
tudo se alterou de forma radical.
O noivado da informática e da caneta,
num raciocínio do digital e da sebenta.

Matemático de Marte,
a exactidão é uma arte.
Poeta de terra,
os mundos estão em guerra.

Combinações que na tua vida não combinam,
correspondências que os números não ensinam.
Integrais que não integras jamais,
diferenciais que perdes entre suspiros e ais.

Arredondas um par de raízes quadradas,
com o encanto de um conto de fadas.
Traças diagonais e assimptotas verticais,
com a magia de poemas musicais.

Desenhas gráficos com tangentes e secantes,
em quadrículas cúmplices como amantes.
Sombreias o espaço interceptado com cinzentos,
como se procurasses esconder os tormentos.

Calculas este raio de mundo
com contas de carácter profundo.
Transformas um dado em parâmetro
e um mistério na função que devolve o diâmetro.

Reduzes o complexo à canónica,
como o resumo objectivo de uma crónica.
Dispões as mágoas numa matriz
e procuras a cura para cada cicatriz.

Amas sem limite, do menos ao mais infinito
e pelejas com o que para muitos não passa de mito.
Levantas o rosto na direcção do crepúsculo
e sabes, não passas de um ponto minúsculo.

Derivas argumentos com factos
por desvarios sinuosos e abstractos.
Trabalhas os números primos
mas o que anseias, mesmo, é por mimos.


As contas da vida,
essa tua ferida.
Extra-terrestre, astronauta,
encantador de flauta.
Essas pessoas reais,
que esqueceram os ideais.
Esses comportamentos complexos,
que te deturpam os reflexos.
Homem indivisível,
homem invisível.
Tu: pajem inteiro,
sem título de cavaleiro.
Tu: existência abandonada,
com a alma racionada.
Contador de mundos,
afogado em desgostos profundos.
Uma vontade que esfria,
num desaguar na noite sombria.
Ser perdido, sem pontas,
no céu, quantas estrelas tu contas?

Equacionas o interior
mas apenas te sentes inferior.
Um conjunto vazio numa depressão despegada,
hieróglifos do passado numa história apagada.

Martemático: poeta dos números;
quantificas corpos inúmeros.
Dissecas teorias que desmontas
mas nunca entenderás certas contas.

ejail

A Vida é quem mais ordena

Novembro 08, 2009

 

Hoje não escrevo. Bombardeio!
Não me fico pelas meias palavras nem pelo termo e meio.
Hoje não digo. Determino!
Abro fissuras no terreno e estremeço o divino!

Extravasa, rebenta!
Não pares! Nem por sete nem setenta.
Estoura, incendeia!
Vive a vida. Vive a ideia!

Trespassa o vazio e a plenitude,
com a tua velha juventude!
Desarma o sossego e arma o desassossego,
com a liberdade que te dá o desapego!

Sê educadamente selvagem e primitivo,
sê espectacularmente explosivo!
Sê carne e espírito,
sê, para ti mesmo e ao mesmo tempo, amado e proscrito!

Rasga o céu, excita electrões e funde átomos!
Sai da pasmaceira daquilo que fomos.
Torna-te no que és!
Está nas tuas mãos. Ouve! A oportunidade clama a teus pés.

Mergulha no fundo.
Perscruta bem esse mundo etéreo e imundo.
Limpa-te bem na sujidade e suja-te igualmente na limpeza.
Deseja, com a mesma ardência, a feiura e a beleza!

Inspira e expira nos píncaros!
Que as penas das tuas asas sejam múltiplos Ícaros.
Voa até que as entranhas do sol te devorem e os teus sentidos gritem!
Mas elas que provem e, se não gostarem, que te vomitem.

Faz amor com a tristeza e faz nascer alegria!
Faz jorrar, do teu íntimo, um pentecostes e um rio ébrio de sangria!
Conjuga sons e cria línguas estranhas, mas musicais.
Parte para longe. Abandona o teu querido cais...

Hoje dá-se o corte.
Ressuscita Morte!
Levanta-te e anda!
A Vida manda.

ejail (2009.11.07)

A Todos Que Passaram Pela Quinta Dimensão

Junho 10, 2009

 

As palavras não são sentimentos,
não os traduzem.
Porque, sempre que os tentam traduzir, algo se perde.
E, quando se fala de sentimentos, se algo se perde, tudo se perde.
As palavras não são e não traduzem sentimentos!
Podem, no entanto, toca-los.
Como um piano pode tocar uma melodia
e como uma melodia pode tocar a alma.
Como gotas de chuva podem tocar o rosto
e como um rosto molhado pode inquietar a alma.
Ou...
Como o vento persistente pode tocar um solo
e o solo pode tocar o indivíduo, afastando-o da multidão.
As palavras são construções do homem
e os sentimentos, desconstruções da humanidade.
As palavras são pontos do mapa
e os sentimentos pontuações do terreno.
Se algo é:
as palavras são o que são
e os sentimentos são o que são.
No que me diz respeito: sinto muito, por escrever.
Mas também escrevo por sentir muito.
Se calhar não me diz respeito.
Se calhar não sei, tão-pouco, quem sou.
Afinal, quem somos nós?
Não respondo com palavras.
Pergunto-me com sentimento!

 

ejail.

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