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Quinta Dimensão

Escravo da Moda

Junho 14, 2023

yoda.jpg

Depois do “milagre” da multiplicação de visualizações, voltamos à normalidade. Creio que Deus leva a sério as questões do livre arbítrio e amor infinito, porque acabou por não me vaporizar antes que pudesse escrever o que escrevi. Ainda assim, mesmo sendo omnisciente, suponho que não se importou de abraçar o engodo que lhe lancei e fez questão de afastar as visualizações para ninguém ler. Desse modo, ambos ficamos felizes. Eu, porque volto ao reconfortante vazio da minha “casa” e Ele, porque teve uma atitude bondosa, ao poupar as pessoas de perda de tempo e sofrimento desnecessário.

Ao mergulhar na história do blog, encetei, num fôlego, uma espécie de viagem ao passado. Foi suficiente para perceber que algo mudou. Não me lembro do porquê, mas, a determinada altura (ou fundura) da minha vida, senti a necessidade da adotar um poema que me identificasse. Apenas, claro, para exercício e consumo interno. O primeiro poema a que recorri foi, com alguma naturalidade, “Amador sem Coisa Amada” de António Gedeão. Mais tarde, na lonjura das noites, procurei personalizar algo que me caracterizasse um pouco melhor. Algo que me identificasse e servisse como uma espécie de fato à medida. Não me importei de passar da seda do fato de Gedeão, para a ganga rota e serapilheira desbotada das palavras que cozi. Quis arriscar e cair dentro do poço que bebe de mim. Esse ensaio de poema serviu durante largos tempos, mas creio que já não me assenta. Começo a sentir-me uma espécie de rei vai nu.

Ainda que o monge comece por tecer o hábito, tantas vezes o hábito acaba a fazer o monge. Não quero obedecer nem, tão-pouco, fazer fretes a poemas. Não sei quem sou, mas, ali, já não sou eu. Mais ou menos na época em que escrevi o “Sombra Lunar”, escrevi o poema que, acredito, hoje me cai melhor. Hoje dispo as vestes rasgadas e visto o “Poema Invisível”.

 

 

Amador sem Coisa Amada – Poema de António Gedeão

"

Resolvi andar na rua

com os olhos postos no chão.

Quem me quiser que me chame

ou que me toque com a mão.

 

Quando a angústia embaciar

de tédio os olhos vidrados,

olharei para os prédios altos,

para as telhas dos telhados.

 

Amador sem coisa amada,

aprendiz colegial.

Sou amador da existência,

não chego a profissional.

"

 

Sombra Lunar

"

Parece-me, de noite, ver alguém na Lua,

solitário e prisioneiro do seu lado oculto.

Parece navegar as cinzas numa falua

e arrastar-se no sedimento como um vulto.

 

Existirão seres extraterrestres,

ou será apenas a névoa do meu olhar cansado?

Talvez só chamando cientistas e mestres,

para vencer as crenças e os dogmas do passado.

 

O mais certo é estar aluado,

desgostoso pela gravidade do espaço.

Triste e despedaçado por não ser amado

e ansioso por me deitar num regaço.

 

Mas não!

Não estou louco nem estafado,

muito embora haja quem diz o contrário.

É que não é fácil ludibriar o fado:

lá em cima só eu e este pobre diário.

"

 

Poema Invisível

" "

Anti-histamínicos

Abril 17, 2023

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Tenho andado com alergias. Não sei porque escrevo este texto, mas é possível que não esteja totalmente em mim. Suponho que a inalação de pó de pinheiro terá ultrapassado a dose de segurança recomendada pela OMS e me possa encontrar sob efeito de algum desequilíbrio hormonal.

 

No livro de Génesis, Deus proibiu o ser humano de comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

"

A serpente, que era o mais astuto de todos os animais selvagens criados pelo Senhor Deus, disse à mulher: «Com que então Deus proibiu-vos de comerem do fruto de todas as árvores do jardim!»

Mas a mulher respondeu-lhe: «Nós podemos comer o fruto das árvores do jardim. Só nos proibiu de comer do fruto da árvore que está no meio do jardim. Se tocássemos no seu fruto, morreríamos.»

A serpente replicou-lhe: «Não têm que morrer. De maneira nenhuma! O que acontece é que Deus sabe que no dia em que comerem desse fruto, abrir-se-ão os vossos olhos e ficarão a conhecer o mal e o bem, tal como Deus.»

A mulher pensou então que devia ser bom comer do fruto daquela árvore, que era apetitoso e agradável à vista e útil para alcançar sabedoria. Apanhou-o, comeu e deu ao seu marido que comeu também.

Nesse momento, abriram-se os olhos de ambos e deram-se conta de que andavam nus. Coseram então folhas de figueira, para com elas poderem cobrir a cintura.

Nisto ouviram que o Senhor Deus andava a passear no jardim, pela brisa da tarde, e o homem foi-se esconder com a sua mulher no meio das árvores do jardim.

O Senhor Deus chamou pelo homem e perguntou: «Onde estás?»

O homem respondeu: «Apercebi-me de que andavas no jardim; tive medo, por estar nu, e escondi-me.»

Deus perguntou-lhe: «Quem é que te disse que estavas nu? Será que foste comer do fruto daquela árvore que eu tinha proibido?»

O homem replicou: «A mulher que me deste para viver comigo é que me deu do fruto dessa árvore e eu comi.»

O Senhor Deus disse então à mulher: «Que é que fizeste?»

A mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi.»

"

Na antiguidade, em especial na mitologia grega, a serpente era tida como representante da sabedoria. É interessante verificar que foi a serpente - aqui confirmada como o mais astuto de todos os animais selvagens - que seduziu a mulher a abrir os olhos ao conhecimento. A mulher, desejosa por sabedoria, ousou quebrar as regras e partilhou a sua descoberta com o homem. Depois é o que se conhece. Ao longo da história assistimos a guerras, longas e sangrentas, entre religião e ciência. Assistimos, por parte de muitas religiões, a uma diabolização da mulher e até das próprias serpentes. Gostaria, no entanto, de retirar algumas notas sobre este equívoco milenar:

  1. Deus - que tudo sabe - saberia, enquanto Pai, que quando proibimos um filho de fazer algo, deparamo-nos com uma taxa de insucesso extremamente elevada. Fica a questão: Poderá Deus ter agido de forma premeditada?
  2. Quando Adão e Eva se deram conta de que andavam nus e coseram folhas de figueira para cobrirem a cintura, estavam ˗ na minha humilde opinião ˗ a dar os primeiros passos naquela que viria a ser a bilionária indústria da moda.
  3. Interessante notar que, quando Deus foi pedir responsabilidades, o homem culpou a mulher e a mulher culpou a serpente. Este padrão de assobiar para o lado e passar de responsabilidades não acontece apenas nas Comissões Parlamentares de Inquérito.

 

Por fim, gostaria de invocar o poeta "Charles Baudelaire" e o seu poema "A serpente que dança".

Para muitos homens será pecado. Para Deus, creio, será divino:

"

Em teu corpo, lânguida amante,

Me apraz contemplar,

Como um tecido vacilante,

A pele a faiscar.

 

Em tua fluida cabeleira

De ácidos perfumes,

Onde olorosa e aventureira

De azulados gumes,

 

Como um navio que amanhece

Mal desponta o vento,

Minha alma em sonho se oferece

Rumo ao firmamento

 

Teus olhos que jamais traduzem

Rancor ou doçura,

São joias frias onde luzem

O ouro e a gema impura.

 

Ao ver-te a cadência indolente,

Bela de exaustão,

Dir-se-á que dança uma serpente

No alto de um bastão.

 

Ébria de preguiça infinita,

A fronte de infanta

Se inclina vagarosa e imita

A de uma elefanta.

 

E teu corpo pende e se aguça

Como escuna esguia,

Que às praias toca e se debruça

Sobre a espuma fria.

 

Qual uma inflada vaga oriunda

Dos gelos frementes,

Quando a água em tua boca inunda

A arcada dos dentes

 

Bebo de um vinho que me infunde

Amargura e calma,

Um líquido céu que se difunde

Astros em minha alma!

"

Ítaca

Julho 19, 2022

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Ítaca - Poema de Konstantínos Kaváfis (tradução: Jorge de Sena)

 

Quando partires de regresso a Ítaca,

deves orar por uma viagem longa,

plena de aventuras e de experiências.

Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,

um Poseidon irado - não os temas,

jamais encontrarás tais coisas no caminho,

se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime

teu corpo toca e o espírito te habita.

Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,

Poseidon em fúria- nunca encontrarás,

se não é na tua alma que os transportes,

ou ela os não erguer perante ti.

 

Deves orar por uma viagem longa.

Que sejam muitas as manhãs de Verão,

quando, com que prazer, com que deleite,

entrares em portos jamais antes vistos!

Em colónias fenícias deverás deter-te

para comprar mercadorias raras:

coral e madrepérola, âmbar e marfim,

e perfumes subtis de toda a espécie:

compra desses perfumes o quanto possas.

E vai ver as cidades do Egipto,

para aprenderes com os que sabem muito.

 

Terás sempre Ítaca no teu espírito,

que lá chegar é o teu destino último.

Mas não te apresses nunca na viagem.

É melhor que ela dure muitos anos,

que sejas velho já ao ancorar na ilha,

rico do que foi teu pelo caminho,

e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

 

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.

Sem Ítaca, não terias partido.

Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

 

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.

Sábio como és agora,

senhor de tanta experiência,

terás compreendido o sentido de Ítaca.

Metade de Oswaldo Montenegro

Junho 30, 2007

Para todos os que têm sede: sede de coragem, sede de ânimo, sede de alegria. Para todos os que têm sede de contacto humano, sede de Deus, sede de amor. A poesia é uma conselheira e uma confidente, sempre presente. É na poesia que, muitas vezes, encontro forças para me retrair. É na poesia que, muitas vezes, encontro forças para dar o próximo passo. É na poesia que, muitas vezes, encontro coragem para suportar a queda. É na poesia que, muitas vezes, encontro coragem para me levantar e forças para caminhar de novo. É na poesia que, muitas vezes, me encontro.
 
Já muita gente o conhece, por certo, mas há poemas que são eternos e podem ser lidos todos os dias. Hoje enriqueço o meu blog com o poema “Metade”, de Oswaldo Montenegro:
 
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
 
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
 
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
 
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
 
Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo
 
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
E a outra metade um vulcão.
 
Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui
E a outra metade não sei
 
Que não seja preciso mais que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço
 
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é a canção
 
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Boa Vontade

Junho 09, 2007

Queria esclarecer um ponto: eu não sou um seguidor do diabo. Apesar da fotografia horripilante do perfil, não faço bruxarias, não espeto agulhas, nem sacrifico galinhas virgens pretas. Aliás, eu gostava que, neste momento, todos os leitores do meu blog dessem as mãos e fechassem os olhos, e me sentissem… me sentissem como um não seguidor do diabo. Não gosto desse palhaço e, acreditem ou não, eu sou Cristão. Pronto! Já podem abrir os olhos, desentrelaçar as mãos e podem, todos, repetir comigo: “Aleluia”! Aleluia irmãos…
 
Esclarecida que está a questão sobre a minha filiação político-partidária e, como prova da minha boa vontade, hoje apetece-me honrar o amor. Claro que isto é sol de pouca dura. Amanhã, se cá vier escrever, vou voltar a dizer mal de tudo. Esta homenagem ao amor é apenas um breve momento de fraqueza na minha inabalável e inexpugnável personalidade. Fica, antes que me arrependa, a tradução (não oficial) de um dos mais belos poemas alguma vez escritos. É uma homenagem a Helena de Tróia por um dos meus poetas favoritos, e o meu blog não seria nada se não fizesse esta singela homenagem a Edgar Allan Poe:
(imagem retirada da internet)
To Helen - Edgar Allan Poe
Helen, a tua beleza é para mim
Como aquelas barcas de Nicéia de outrora,
Que, suavemente, sobre um perfumado mar,
O exausto, extenuado viandante trazia
Até à sua terra natal.
 
Sobre mares encapelados vogava sem descanso,
O teu cabelo de jacinto, o teu rosto clássico,
O teu porte de Náiade trouxe-me de volta a casa
Para a gloria que foi a Grécia
E a grandeza que foi Roma.
 
Olha! No brilhante nicho da janela
Semelhante a uma estátua, eu te vejo ali!
O candelabro de ágata em tua mão,
Ah! Psiquê das regiões que
São Terra Sagrada!

Pouca gente sabe...

Maio 25, 2007

Pouca gente sabe porquê, mas este é um dos meus poemas preferidos de António Gedeão:
 
"Poema do Gato
 
Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prà rua,
cheira o passeio
e volta pra trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre pra mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semicerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa.
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas,
e rosna,
rosna, deliquescente,
abraça-me
E adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?"
(imagem retirada da internet)
António Gedeão.

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