Cinzento
Abril 08, 2023
Quinta-feira, fim de tarde. Cabeça cheia, coração apertado, respiração pesada e umas gotículas de desânimo. Desço para a garagem e, finalmente, lubrifico a corrente da mota. Há um bom par de dias que inventava desculpas para não o fazer. Amanhã preciso de atacar a estrada e perder-me nos mistérios das suas curvas. Dentro do arrumo, descansa, há mais tempo do que devia, a bicicleta. Trago-a para fora, limpo a corrente das impurezas, que teima em acumular, lubrifico-a e revigoro os pneus com uma lufada de ar fresco. Está escolhido o veículo. Vou pedalar até os músculos doerem tanto que me vou esquecer dos motivos que me levaram a pedalar.
Sexta-feira, início da manhã. Fisicamente não estou preparado para chegar ao destino. Pensei-o mas não o disse, principalmente a mim. Ida e volta serão cerca de 200Km e nunca percorri tamanha distância de bicicleta, nem mesmo quando estava em melhor condição. Capacete, luvas, pedais encaixados e partida. São 6H45 e a lua ainda se banha na última luz que o Sol lhe empresta.
Não me considero ciclista, apenas alguém que gosta de andar de bicicleta e que o faz esporadicamente. Muito menos me considero fotógrafo, pois nem máquina fotográfica tenho. Tiro pouquíssimas fotos e todas com o telemóvel. Ainda assim aprecio a arte de fotografar e, quando tropeço em imagens singulares, belas ou feias, se me inquietam, tento perpetua-las para além do esquecimento e das falhas da memória. É, porém, extremamente difícil captar, num quadro e num instante, a alma daquilo que os sentidos experimentam. Dentro das minhas limitações, procuro não ficar demasiado distante dessa fatalidade. Neste caso, não deixo que o sentimento constante de que “podia ficar melhor” me impeça de continuar a falhar.
No início do ano fui, de mota, com o meu irmão, a Vila Praia de Âncora. Lembro-me de lhe ter dito, enquanto tomávamos café, o quanto gosto da freguesia e dos arredores. Disse-lhe, também, que gostaria de lá ir de bicicleta mas que não conseguia. Vejo, agora, que talvez tenha sido nesse instante que o meu inconsciente, silenciosamente, abraçou o desafio.
Ao longo da vida tenho colecionado um histórico razoável de falhas, derrotas e desistências. São marcas que pesam e, muitas vezes, são como uma âncora que me prende a uma espécie de lodo. São inúmeros os dias em que me arrasto. Enquanto pedalava, assaltou-me, várias vezes, o pensamento da desistência. Pode ser algo pequeno, com pouca importância, mas ontem cumpri. Para além de cumprir, ainda deu para tirar umas quantas fotografias (que podiam ter ficado melhor). E não há músculo que não doa mas, graças ao Sol, nada dói mais que a pele queimada e vermelha dos braços e das pernas. Posso dizer que a viagem me trouxe alguma cor e que me sinto menos cinzento.