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Quinta Dimensão

Bom Demais Para Ser Verdade

Julho 17, 2007

Coimbra: cidade de despedidas encantadas. Na sua complexa rede de estradas e estreitas ruelas, circulam um pequeno sem-número de autocarros. Movem-se para os lados, para trás e para diante, sem nunca se afastarem muito de um qualquer ponto de gravidade imaginário. São uma espécie de pêndulos urbanos. São como bestas tecnológicas que, aprisionadas, ora engolem os seres humanos, ora os cospem. Tudo é feito com uma extrema rapidez e frieza mecânicas e, as poucas excepções que ocorrem, são quando as presas, quase sempre amorfas e resignadas, discutem entre si para ver quem vai primeiro.
 
Um desses autocarros tem uma particularidade. Aparentemente é um veículo de transporte de passageiros normal: não muito velho, não muito novo. Tem bancos que foram construídos na tentativa de encontrar um compromisso entre o conforto, a usabilidade e a economia. Guincha e oscila, como muitos outros, nas curvas mais apertadas e não trepida menos quando a estrada é de paralelo. Transporta renegados de meia-idade, de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Carrega os velhos, com passes sociais, a quem a sociedade já há muito retirou a esperança e leva os novos para a escola que aguarda para os formatar. Os jovens são inocentes e deixam-se, facilmente, iludir pela esperança e modas passageiras. O autocarro transporta pobres: homens e mulheres, crianças e pedófilos, inocentes, ladrões e assassinos. Ele não escolhe o que lhe dão a comer, apenas come o que lhe é servido. Nele são transportados seres à deriva numa sociedade de castas de falsidade. É um autocarro igual a tantos outros, apenas tem uma singular particularidade que só a mim diz respeito.
Um destes dias, uma qualquer empresa sediada no Porto, vai comprar este autocarro. Alguém o há-de levar para a oficina e dar-lhe um banho de tinta. Alguém o há-de pintar, numa estufa própria, com as cores da nova empresa. Depois vai ser restaurado: o chão, comido pelo arrastar dos passos pesados dos passageiros, condenados com grilhões a vidas efémeras e repetitivas; os assentos encardidos de transpiração mundana; os graffitis com mensagens de alguém que amava e agora, se calhar, até já odeia; o sebo das mãos ainda agarradas aos varões; os fantasmas de Coimbra. Tudo tem de ser limpo e renovado.
 
Um motorista vai ser contratado para conduzir o autocarro. Vai ser colocado um anúncio no jornal e muitos desempregados e desgraçados vão concorrer. O salário não é grande coisa mas, para muitos, vai ser a sua última oportunidade. À medida que várias fazes da selecção vão sendo progressivamente queimadas, o número de candidatos vai diminuindo até que, por fim, um deles será o escolhido. Neste caso em particular não vai haver cunha. O motorista que será escolhido provará ser o melhor. A empresa irá reunir referências junto de antigos empregadores e, todos eles, abonarão a favor do candidato. Vai, posteriormente, iniciar uma acção de formação profissional teórica e prática. Um motorista da casa, mais experiente, vai, depois disso, mostrar-lhe o percurso da carreira que lhe será designada e explicar-lhe as manhas do trânsito local. Tudo tem de ser perfeito. Chega o dia e o autocarro e o motorista estão prontos para saírem à rua.
 
Durante cerca de seis meses e quinze dias tudo parecerá normal. Mas não no dia a seguir. Nesse dia em particular, esse motorista em particular, com esse autocarro em particular, vai sair da garagem e, como de costume, vai encaminhar-se para o respectivo giro. Porém, uma velha furgoneta, em infracção de velocidade excessiva, vai efectuar uma manobra arriscada e colidir com o retrovisor esquerdo do autocarro. A colisão não será suficientemente forte para partir o espelho mas vai chegar para desalinhar o mecanismo de suporte. Na confusão que se seguirá, o infractor vai fugir, não dando tempo ao assustado motorista de registar a matrícula. Este, por sua vez, pegará no telemóvel e ligará para os escritórios da empresa, para o sector das escalas, contando o sucedido. Vão chegar à conclusão que não há nenhum autocarro para efectuar a substituição e, como o retrovisor apenas está ligeiramente desalinhado, o motorista pode seguir viagem. No final do dia, quando o autocarro recolher, os serviços da oficina farão a reparação. O motorista retomará a marcha.
 
Algumas horas depois, o autocarro irá parar, como de costume, numa paragem. As pessoas, como de costume, vão sair e vão entrar, insensíveis à rotina. Sairão e entrarão, como habitualmente, todos os dias úteis - ou todos os dias inúteis. Sairão e entrarão como se, de alguma forma, a humanidade quisesse foder aquele autocarro. O motorista, não vendo qualquer veículo pelo retrovisor desalinhado, dará sinal de mudança de direcção para a esquerda e retomará a marcha. De traz virá um condutor mais apressado e distraído, que não se vai aperceber e, deixando cair o telemóvel, apenas conseguirá pressionar a buzina sem se conseguir desviar e sem conseguir abrandar em tempo útil. Nesse instante, o motorista do autocarro, ouvindo a buzina e apercebendo-se do perigo de colisão iminente, guinará o autocarro, num reflexo irreflectido, para a direita, para cima de uma passadeira. Uma pessoa vai ser colhida…
 
Vejo-me deitado sobre um zebrado. O céu parece cinzento mas, antes da colisão, parecia-me azul. Talvez, o impacto contundente ou a sensação de uma severa fatalidade, tenham afectado os meus olhos e me tenham levado as cores. Apercebo-me que não é só o céu que não tem cores. As pessoas à volta também estão descoloridas. Sinto um arrepio constante e, estranhamente, começo a desaprender a respiração e a sentir uma repentina falta de forças. Sinto a cabeça descair para o lado, sem que tenha poder para a contrariar, e começo a ver imagens, pouco nítidas e antigas, a substituírem as actuais. Sinto os olhos fecharem-se e, apesar disso, cada vez mais, vejo mais imagens. Parecem ser coisas do passado, imagens que já nem me lembrava de ter guardado, imagens de coisas de que não consigo ter a certeza se realmente aconteceram. Tudo parece ter atingido um estranho silêncio sepulcral. É quase espiritual. Mas, nessa falta de sons, uma voz vai-se fazendo ouvir. Uma voz surda que se confunde com o vácuo. Uma voz que, gradualmente, vai ganhando protagonismo face à estática do silencio. Uma voz que soa cada vez mais alto e que, cada vez mais, parece uma gargalhada e um grito irado. Uma voz que diz: “Seres feliz… Era bom demais para ser verdade!”
 
 
Tenho que falar da Ana e não consigo. Porque é uma pessoa única e especial. Alguém que me ensina e ajuda a derrotar o medo de viver. Alguém que surgiu na minha vida de uma forma tão profunda, que parece bom demais para ser verdade. É alguém que me faz olhar para os dois lados, quando atravesso uma estrada. Alguém que não quero perder por que me faz ter vontade de viver, que me faz ter vontade de amar. Alguém que me faz ter um peculiar cuidado com os autocarros. ;-) É alguém que me faz acordar com um sorriso nos lábios, ao invés de uma lágrima no rosto. É alguém que veio trazer ânimo e sentido à minha vida. Alguém que aceita e compreende os meus medos, e me conforta. Alguém que deixa que eu faça o mesmo por ela. É alguém em quem eu começo a confiar e alguém que vai confiando cada vez mais em mim. Uma pessoa bonita que me desperta o desejo e uma pessoa bonita que me desperta a espiritualidade. Não encontro palavras para falar desta mulher. Teriam de ser palavras ainda não inventadas. Palavras virgens, criadas unicamente para serem usadas nesta magnifica pessoa. Estou de beicinho por ela. Quem diria? Logo eu…
 
Ana, eu amo-te!
 
 
Atentamente,
José.

Glorioso Combatente?

Julho 13, 2007

Mais uma batalha perdida. Esta, de forma brutal. Não sei como ainda continuo por aqui. Não sei como ainda continuo na guerra…
 
Estou bastante cambaleante mas que se foda esta merda toda que sinto cá dentro. Tenho que tapar bem, enterrar bem, estes sentimentos. Ocultar cada uma das cicatrizes em carne viva, cada uma das cicatrizes em espírito morto. Esconder cada grito lancinante por debaixo do “Eu Social”. Acho que precisava de vomitar qualquer coisa, não sei... Sinto-me enjoado, carregado, negro e com um peso terrífico sobre os ombros. Sinto-me fraco, um perdedor nato. Bem… esta merda é toda muito interessante mas… tenho mesmo que ir trabalhar…

BLOG EM POSTas

Julho 04, 2007

A forma como aqui coloco as letras, faz-me lembrar aqueles escaravelhos do canal Odisseia, a arrastarem berlindes de merda de búfalo (ou de outro animal de porte igualmente abastado). As letras chegam aqui já sem vontade própria. Chegam cansadas, desacreditadas e desoladas. Eu desapontei-as.
(imagem retirada da internet)
Ultimamente não consigo escrever nada. Nada de jeito, pelo menos. Não tenho talento, não tenho ideias e não tenho vivências. Interiormente sinto-me vazio e – parecendo, mas não sendo redundante - sinto-me oco. Mas, talvez, “vazio” e “oco” não sejam os termos mais felizes para retratar o que se passa cá por dentro. Se fosse só isso... Esse “vazio” e esse “oco” estão preenchidos por uma angústia e uma confusão que me tornam, de todo, improfícuo. Retiram-me toda e qualquer utilidade. Sinto os neurónios dormentes e os neurotransmissores enleados em teias de aranha elanguescentes. Transformei-me, unicamente, numa espécie de prostituto de sentimentos e pensamentos. O blog, por sua vez, tornou-se num simples muro de lamentações e é, cada vez mais, um espaço autista: tenho escrito muito mas, maioritariamente, numa perspectiva de dentro para dentro. É uma escrita fechada com posts demasiado sérios, sisudos, cinzentos e graves.
 
Estou, claramente, abaixo de forma. Nunca mais vou dar nada… se é que alguma vez dei. Estou queimado. Estou, psicossomaticamente falando, fodido. Sinto-me um morto-vivo morto. Acho que já atingi aquele ponto de onde não há como retornar. Acho que, para o meu caso perdido, só há uma última solução de recurso: acho que estou, desesperadamente, a precisar de um relacionamento tórrido.
 
Estou a precisar, talvez, de uma mulher que me levante… a moral.
 
Atentamente,
ejail.

Correntes Invisíveis

Julho 03, 2007

(imagem retirada da internet)

 
Meio da tarde. O tempo está deprimido: cinzento, tal qual o meu casaco. No alto planam algumas gaivotas. Aproveitam correntes de rios de vento que, para mim, são invisíveis mas, para as aves, marujos experientes, são dádivas que não escapam ao instinto. Parecem voar sem destino, sem mapa e sem instrumentos, apenas pelo prazer de navegar os céus.
 
Atentamente,
ejail.

Mar Morto

Julho 02, 2007

Este é apenas mais um dos pouquíssimos contos que escrevi. Já tem uns tempos mas hoje deixo-o aqui, porque me recorda que as palavras de nada valem. Um amigo não precisa de falar. Um amigo está presente ou, pelo menos, não abandona. Mas um amigo é, talvez, alguém que não existe. Analisando friamente a questão, creio que, tanto a amizade como o amor, sucumbiram ao mais puro egoísmo. Estou tão cheio de palavras e, no entanto, sinto-me tão só… sinto-me tão cansado… sinto-me a secar. Este conto é uma investigação pessoal pelo campo da pura especulação e imaginação. Nada disto está devidamente documentado. Procuro, neste exercício, descobrir o momento exacto em que morreram a amizade e o amor. Procuro o momento exacto em que o egoísmo triunfou.
(imagem retirada da internet)
 
Mar Morto
 
Mar morto… Era uma vez um enorme mar: imponente, orgulhoso e vigoroso. Morava longe de tudo e tudo o que conhecia era o interior dos seus domínios. Com excepção de uma pequena rocha, situada no seu centro, tudo era coberto pela enorme porção de água. Misteriosamente, por mais altas que fossem as ondas ou por mais cheias que fossem as marés, a rocha era sempre poupada à fúria das águas e mantida à superfície.
 
Num dia, diferente de todos os outros, choveu. A chuva escorregou e penetrou por uma estreita fissura da rocha e tocou uma pequena semente. A semente havia sido transportada acidentalmente por uma ave perdida, num tempo esquecido, durante uma viagem fatídica. Ao toque da chuva, uma pequena flor brotou de um casulo adormecido. O milagre da vida! De dia para dia foi crescendo, tornando-se cada vez mais bonita. Era especial e única naquele mundo agreste. Sozinhos, a flor e o mar, começaram a falar-se e, com o tempo, tornaram-se grandes amigos. E o tempo foi passando… Durante o tempo que passou, os elos de amizade que os uniam foram-se tornando mais fortes e os muitos sentimentos fundiram-se num só e, entre eles, nasceu o amor. Todos os dias, pela manhã, ela abria as suas pétalas e presenteava-o com a sua extraordinária beleza. Ele deixava-se seduzir pelo seu perfume. Era transportado para as mais belas fantasias, onde habitavam os sonhos coloridos pelos desejos femininos da flor.
 
Passaram-se anos e os dias perfeitos e amenos deram lugar a dias quentes e febris. O Sol, moderado, que sempre trouxera a vida, tornara-se numa ameaça para a tenra planta. Atingida pela ira incompreensível do Sol, ela dirigiu-se então ao mar e pediu-lhe uma gota de água doce para que pudesse saciar a sede. Nunca ninguém lhe pedira uma gota de água doce. Mergulhou em si mesmo e procurou no seu interior. Esquadrinhou cada gota do seu corpo à procura de uma que fosse doce. Desesperado, contorceu-se e revirou-se, mas no meio de tanto esforço, ele sabia, para seu desgosto, que a busca havia de ser vã e infrutífera. Não estava na sua génese, não era essa a sua natureza. Quando saiu de si mesmo, o mar voltou-se para a rocha, mas a flor havia morrido e estava deitada sobre a pedra dura. Era como se tivesse adormecido enquanto esperava, tranquila, pelo regresso da vida.
 
Muitos dias nasceram e outros tantos morreram, num genocídio tão rotineiro, que passa despercebido aos deuses deprimidos pela eternidade. Mas nesse intervalo de tempo esquecido, o mar foi secando e acabou por dar lugar a um enorme deserto, e muitas lendas foram criadas a seu respeito.
 
Um dia, muitos dias depois desta história, um respeitado grupo de arqueólogos resolveu investigar e, de uma vez por todas, descobrir se alguma das lendas era verdadeira. Após anos de uma longa e árdua investigação, os cientistas publicaram as suas conclusões numa pequena e desacreditada revista arqueológica. Diz, quem leu, que no texto estava escrito algo parecido com outra lenda: O mar pensou para si – Para quê tanta água, se nem uma única gota serviu para saciar a sede da minha amada? – Chorou de seguida toda a sua água, secou e morreu. No seu coração de pedra nasceu, um dia, uma bela e vaidosa flor cheia de vida. No seu coração de pedra nasceu, um dia, a amizade e o amor. Mas o Sol, ardendo em ciúme, não se compadeceu e roubou a vida à frágil flor. O Sol ficou tão zangado que, ainda hoje, continua a escaldar a rocha e as areias de um deserto vivo, o leito de um viúvo mar morto…
(imagem retirada da internet)
Atentamente,
ejail.

Poeta Maluco

Julho 01, 2007

Era uma vez um poeta: feiticeiro das palavras e mágico dos sentimentos. Um mau escritor que, um dia, perdeu as rimas. Trazia-as, algures espalhadas dentro dos bolsos, juntas com os trocos.
 
Um poeta não sabe nada, está sempre a aprender. Deita-se com a luz das estrelas e levanta-se com o chilrear dos pássaros. Não tem idade: não é velho, nem é novo. Não é nada. Existe apenas quando quer, quando sente o dever de existir - embora, às vezes, queira existir e não saiba como. É algo que não pode ser: desaparece no meio de si e tenta aparecer no seio dos outros. Mas, isso, é só porque é um solitário. Não é cobarde, mas chora como uma criança e ri como um garoto - embora, ultimamente, não consiga encontrar motivos para sorrir. É um puto das ruas, descalço e de cara suja. Um renegado de alma lavada, de alma incompreendida.
(imagem retirada da internet)
A estrada, sabe-o bem, não foi feita para ser percorrida. Foi construída para ser estudada. Evita caminhar por ruas muito percorridas. O caminho foi calcetado para jogar à bola e os campos para dançarem ao sabor dos caprichos do vento. Uma pedra solta é para ser lançada ao mar, ou ao rio. Não importa para onde, desde que seja lançada para o mais longe possível, desde que seja arremessada, com todas as forças, para o âmago do infinito. A chuva são lágrimas de poetas, irmãos que pereceram nas inúmeras batalhas, e se fundiram no Absoluto. O Sol é, por si só, um magnífico poema. Um poeta compreende o ciclo da árvore: a árvore, que no Verão traz a sombra, é a mesma que no Outono dá os versos. Versos: estrofes secas, outrora viçosas, que tombam na manta morta como folhas gastas pelo uso do tempo. A Primavera é a vida em flor e o Inverno o seu fiel cobertor. O frio e o calor são as suas roupagens: um poeta não é morno - embora possa estar adormecido.
 
De dia, ou de noite, há sempre um poeta acordado e pronto a sonhar.
 
Era uma vez um poeta que, por algum tempo, vai desaparecer. Um sofrível escritor que se vai ausentar dentro de si. Talvez só por algumas horas, ou alguns dias…
 
Atentamente,
ejail.

Metade de Oswaldo Montenegro

Junho 30, 2007

Para todos os que têm sede: sede de coragem, sede de ânimo, sede de alegria. Para todos os que têm sede de contacto humano, sede de Deus, sede de amor. A poesia é uma conselheira e uma confidente, sempre presente. É na poesia que, muitas vezes, encontro forças para me retrair. É na poesia que, muitas vezes, encontro forças para dar o próximo passo. É na poesia que, muitas vezes, encontro coragem para suportar a queda. É na poesia que, muitas vezes, encontro coragem para me levantar e forças para caminhar de novo. É na poesia que, muitas vezes, me encontro.
 
Já muita gente o conhece, por certo, mas há poemas que são eternos e podem ser lidos todos os dias. Hoje enriqueço o meu blog com o poema “Metade”, de Oswaldo Montenegro:
 
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
 
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
 
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
 
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
 
Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo
 
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
E a outra metade um vulcão.
 
Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui
E a outra metade não sei
 
Que não seja preciso mais que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço
 
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é a canção
 
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Coração de Pedra

Junho 29, 2007

Continuo sem conseguir falar. Continuo fechado. Talvez, numa espécie de casulo, em metamorfose: ashrayaparavrtti. Escrevi este humilde conto, num dia em que a esperança parecia escassear...
(imagem retirada da internet)
 
Coração de Pedra
 
Agora volto às rimas da melancolia. Os sonhos são como o canto das sereias e eu não me consigo deter. Chamam por mim dia e noite e deixo-me seduzir, acabando, quase sempre, por acordar num poço de lágrimas:
 
– De onde vem esta água salgada? – Pergunto.
– Foste à fonte do amor, encher o coração, mas no regresso quebraste-o e verteste todas as suas lágrimas. – Responde a tristeza.
– Por que não me concedes outro coração mais forte e permites que o volte a encher na mesma fonte? – Replico, quase ansioso.
Mas, de imediato, o mar encapela-se e as sereias irrompem na conversa:
Não! Reúne todos os pedaços, cola-os e volta à fonte, mas a maldição não te abandonará! No regresso, de novo, o partirás.
– Porque me fazem isso? – Pergunto já inconsolável e em desespero.
– Para que não fiques como eu. – Responde-me uma pedra. – Uma pedra não chora, mas também não ri. Não sofre mas também não sente. Junta sempre com paciência e mestria todos os pedaços quebrados do teu coração. Um dia terás força para vencer o canto das sereias e enganar a tristeza. Eu sou uma pedra e as pedras existem há milhares de anos, e sabem, portanto, do que falam.
 
Então penso para mim:
 
“As pedras são fortes e resistem, com bravura, ao passar do tempo. Sempre fui um apreciador das pedras, pois imagino que, tendo elas vivido tantos milhares de anos e presenciado tantos acontecimentos, sejam sábias e excelentes contadoras de histórias. É preciso saber escutá-las. Falam, melhor do que ninguém, nos hiatos do silêncio. Só espero ser homem bastante e ter forças para seguir o conselho da pedra.”
 
E assim se começa a construção… de um coração de pedra.
 
Atentamente,
ejail.

O Encantador de Serpentes

Junho 28, 2007

Hoje queria falar mas não conseguia. As ideias misturam-se sempre que quero dizer alguma coisa importante. Não consigo ser coerente e muito menos perceptível. Sobra-me a escrita que, embora medíocre, é o meu único meio para quebrar a solidão. Quase não escrevo contos. Este já foi escrito em Abril mas fui busca-lo porque retrata bem o que sinto hoje…

(imagem retirada da internet)

 
O Encantador de Serpentes
 
Esta história nunca aconteceu. Passou-se em terras do oriente mas poderia passar-se em outro qualquer lugar. Passou-se há centenas de anos atrás mas poderia, perfeitamente, acontecer hoje. Narra a ventura de um homem especial mas poderia, também, ser a história de um qualquer homem comum.
 
Era uma vez um homem humilde que habitava um modesto casebre com a sua esposa. Viviam sós e não tinham filhos, porque a mulher era estéril, mas o amor que os unia era fecundo. Um era o tesouro do outro e, nessa perspectiva, como poderiam ser pobres? As dificuldades eram grandes mas, para quem ama, nunca são maiores que o coração. Apesar dos escassos recursos materiais pode dizer-se que viviam felizes.
 
O que tornava este homem especial era a forma como ganhava o pão do dia-a-dia. Quando jovem, vagueou com seu pai por terras longínquas, numa jornada em busca do auto-conhecimento e das riquezas interiores. Passou por países como a Índia, o Nepal e a China, chegando mesmo a alcançar a longínqua fronteira da Mongólia. Foram anos difíceis mas, por aquilo que aprendeu, só poderia ter consigo um sentimento de gratidão. Durante essa extensa viagem, estiveram acampados durante largos meses, numa remota localidade Indiana, onde conheceram um velho brâmane errante que sabia dominar as serpentes. Para dominar uma serpente – dizia ele – é preciso entender que o homem e a serpente fazem parte de um todo: o Absoluto. Assim, com meditação, o homem e a serpente deixam de ser dois seres para se tornarem um. Dominar a serpente era, dessa forma, tão fácil como dominar um dedo ou um braço. Para além do encantamento, o brâmane era entendido na arte de lidar com as mordeduras e os respectivos venenos. Adquirira uma estranha imunidade e afirmava que o veneno é apenas uma parte da vida, da mesma forma que também a morte é uma parte da vida. Há vida no veneno, só é preciso saber procurar. O velho habitava esta terra material mas comungava com outros mundos invisíveis que compõem o Absoluto. Era, apesar de humilde, muito instruído e um excelente professor. Não demorou muito, por isso, até que passasse para o homem a sabedoria e os conhecimentos que permitiam encantar serpentes e enganar a morte na forma dos seus mais variados venenos. Assim, o ganha-pão do homem, agora mais velho, consistia em sentar-se na praça central e exibir o seu talento aos mais curiosos a troca de algumas moedas. Enfeitiçava serpentes e fazia-as dançar, numa maneira de ganhar a vida como outra qualquer. De quando em vez, porém, quando o dinheiro para comer escasseava e o público se mostrava mais generoso, deixava-se ser mordido por elas, e foi ganhando fama como o homem que conseguia enganar a morte.
 
Um dia, a história do homem que resistia aos venenos, chegou aos ouvidos do Vizir. Como este se encontrava em vias de organizar uma festa no palácio real, decidiu convoca-lo para servir de principal atracção. Havia, no seu palácio, um grande jardim zoológico onde habitavam alguns dos mais exóticos animais dos quatro cantos do mundo. Pediu, portanto, que fosse escolhido e preparado o espécime mais venenoso, de modo a que a sua toxicidade fosse experimentada no homem. A história soava-lhe a boato mas seria, com certeza, um número circense diferente do habitual e iria muito certamente agradar aos seus ilustres convidados estrangeiros. O humilde homem não podia negar um pedido tão honroso do Vizir e prontificou-se a servi-lo de acordo com a sua inquestionável vontade.
 
*** Passaram poucos dias, até que esse dia chegou por fim. ***
 
A festa estava animada mas havia uma certa ansiedade dos presentes para assistirem à grande prova do veneno. Gradualmente foi-se formando a respeito um enorme burburinho entre a multidão. Uns diziam que era impossível resistir aos venenos, enquanto outros asseguravam que não, que era possível em alguns casos. Outros, ainda, diziam que até podia ser possível resistir a alguns venenos mas não ao veneno do espécime peçonhento que aguardava. Então, quando o burburinho se transformara em gritaria, uma voz seca de trovão anunciou a chegada do Vizir que, por sua vez, disse de imediato:
- Hoje vai saber-se, se o homem que se encontra de pé à minha frente, é um homem de bem, abençoado pela sabedoria dos Brâmanes, ou se, pelo contrário, é um impostor que quer enganar o povo para proveito próprio. Este homem vai ser testado de forma que não restem dúvidas sobre o que apregoa. Se for realmente imune ao veneno farei dele um sábio da minha corte e ouvirei os seus ensinamentos. Porém, se nos estiver a enganar e não sobreviver, a sua bela esposa, que se encontra a seu lado, será executada para que este dia sirva como exemplo a todos os desonestos. Que comece a prova!
 
- A Mamba negra é a serpente mais venenosa do continente Africano. Caso não seja tratada de forma célere, a vítima da sua mordedura fica paralisada e muito dificilmente escapa a uma morte agonizante. Se este homem se mostrar imune ao veneno é, sem qualquer margem de dúvida, um homem santo. – Assim disse, com uma voz grave, o experiente tratador dos animais, responsável pela escolha de tão exótico espécime.
 
Foi pedido ao homem que estende-se o braço direito e afastasse o manto que lhe ocultava a pele. A serpente, agressiva por natureza, foi aproximada e desferiu duas rápidas mordeduras, injectando grande quantidade de veneno. Nunca o homem esteve sujeito a tal veneno e em tão grandes quantidades. De repente os seus joelhos dobraram-se tendo, de imediato, prostrado o olhar no chão. A esposa abraçou-o e assim ficaram, agachados, enquanto todos no salão tentavam espreitar mais alto para saciarem a curiosidade mórbida inerente ao ser humano.
 
Faz parte de um todo: a serpente e o homem, o veneno e o sangue. A morte e a vida. O Universo diz-nos que para tudo é preciso um oposto, afim de haver um equilíbrio. Como pode o homem dar real valor à vida se não tiver consciência da sua morte. O que ao homem comum parece caos, ao sábio parece lógico. Porque, continuamente e de forma renovada, os equilíbrios desequilibram-se e os desequilíbrios equilibram-se, numa contribuição para o equilíbrio maior. O sábio não olha os acontecimentos como elementos isolados mas, antes, como parte integrante de um grande processo. Mantém a equanimidade porque, para além do relativo, estuda as propriedades do Absoluto. É um geómetra que sabe ler, interpretar e compreender os sinais do Universo pois eles são, por si só, uma linguagem própria. O verdadeiro sábio é humilde e com humildade se levanta e diz ao Vizir:
- Perdoe, Vossa Majestade, a minha ausência momentânea. Precisei de meditar porque, com tanta agitação, desuni-me momentaneamente do Absoluto. Mas agora estou bem e às ordens de Vossa Eminência.
 
O Vizir, convencido e convertido, decretou que, doravante, o homem deixaria de ser pobre. Por mérito próprio conquistara um lugar de sábio na sua corte. Iniciaria as suas novas funções logo no dia seguinte. E a festa continuou, noite dentro, com grande animação até de madrugada.
 
***
 
No dia seguinte o homem não apareceu. Estranhando a ausência, do agora sábio, o Vizir enviou dois mensageiros ao casebre para se inteirarem do porquê da respectiva demora. Apesar de ser experiente e vivido, não conseguia disfarçar algum nervosismo, enquanto vários pensamentos o desassossegavam. Algumas horas depois chegaram os servos, regressando cabisbaixos.
- Então, o que se passa? – Perguntou, inquieto.
- Vossa Majestade: as novas que trazemos estão, infelizmente, carregadas de trevas… O homem e a respectiva esposa morreram envenenados. A esposa encontrava-se deitada sobre o leito, enquanto o homem jazia suspenso numa forca improvisada.
- Não estás a ser coerente! – Afirmou o Vizir com surpresa e ferocidade – Como podes afirmar que o homem morreu envenenado e, logo a seguir, dizeres que estava suspenso numa forca? E como poderia o homem morrer envenenado se, ainda ontem, se mostrou capaz de resistir a um dos venenos mais fortes conhecidos pela humanidade?!
- Bem, Vossa Majestade, o pobre homem deixou uma carta…
 
A carta tinha inscrita a seguinte mensagem que o servo passou a ler em voz alta:
 
          Parece, Vossa Majestade, que não vai ser possível apresentar-me no palácio para ter a honra de lhe transmitir os ensinamentos que, um dia, outros sábios me passaram a mim. Porém, quando terminar de ler esta mensagem, espero que possa apreender o maior ensinamento de todos. O ensinamento que supera todos os outros.
Ontem, após terminada a festa em que muito me honrou participar, eu e a minha esposa pusemo-nos a caminho de casa. A meio da caminhada uma serpente, esgueirando-se de surpresa e de forma rápida por entre a seara, mordeu-lhe com gravidade um calcanhar. O resultado foi uma morte em agonia nos meus braços, não podendo eu fazer nada para o evitar. De todos os venenos do mundo, este era o único para o qual não estava preparado, pois não fora directamente dirigido a mim. Fui para casa, carregando-a nos braços e, quando lá cheguei, deitei-a sobre a cama. Olhei para ela ali, inanimada, enquanto dormia um sono perpétuo, e tamanha angústia fez com que deixasse de me sentir parte de um todo. Senti-me, tão-somente, parte de nada. Bem ou mal decidi, nesse momento, que queria seguir os passos do amor da minha vida e partir pelo mesmo caminho que ela havia tomado. Decidi que tinha de a procurar e, portanto, lançar-me à maior expedição da vida… Se a vou encontrar? Quem sabe?... Mas a pergunta a fazer não será tanto essa. Essa é uma pergunta que unicamente a mim diz respeito. A pergunta relevante será, Vossa Majestade: qual o maior ensinamento que lhe posso deixar? …
 
Aqui, o servo deteve-se e, comovido, preferiu entregar o escrito ao Vizir. Este segurou a carta e leu o ensinamento em silêncio, enquanto uma lágrima lhe percorria os contornos do rosto.
 
Era um homem que se unia às serpentes para não morrer, mas era o facto de estar unido ao amor da sua vida que o fazia viver. Era um homem sem nome porque, talvez no fundo, fosse um homem comum. Era um homem que habitou um passado longínquo mas, ainda hoje, o seu derradeiro ensinamento parece verdadeiro. Era, também, um homem de terras distantes mas com uma história que toca de perto os nossos corações. Era um homem que, de facto, morreu envenenado. O que estava escrito, no final da carta, foi transcrito para o final deste conto:
 
O maior veneno para o homem é a falta de amor”.

Ănima

Junho 27, 2007

(imagem retirada da internet)
Nasci no Porto e, nas minhas veias, corre sangue com granito. Carmesim, escurecido com cinza deslavada: é este o líquido que me sustém o esqueleto de pé. Respiro pesadamente como se, a cada acção de inspirar, correspondesse o acto de erguer uma fraga. É uma falta de ar que advém da poluição dos pensamentos estéreis que, em mim, se esfumam sem nunca se materializarem. É uma respiração comprimida que se aperta contra o peito, com uma veemência e um vigor desproporcionados. Um aperto voraz, contra um peito disforme que oculta um coração maciço de pedra-pomes. Este órgão estranho, monolítico — que um dia foi um pedaço de lava, de magma incandescente e pleno de actividade e de vida — é hoje um velho ajuntamento, disperso e compacto, de cinzas carbonizadas. Tudo em mim, portuense, parece desprovido de vitalidade. Tudo parece disposto num pós-incêndio: cinzento, desordenado e constante. Tudo em mim parece um bando de formas indissociáveis: uma argamassa insípida e de monótona destruição. Tudo, neste instante de melancolia, parece morto… excepto:
 
a Alma.

Sinto-me 1 Fantasma

Junho 25, 2007

Com uma crescente frequência, dou por mim prostrado numa introspecção leviana. Surge a qualquer hora do dia - e da noite -, quando menos a espero. São indagações profundas e, no entanto, quase sempre fúteis. Nada têm de profícuo. Aparecem, sob a forma de passeios, em passos demorados, pelos labirintos do limbo enevoado que separa o real e a quimera. Percorro-me até às entranhas, numa tentativa vã de responder a questões que me devoram como piranhas. Esta introspecção, que corrompe a pureza do pensamento e provoca a flacidez dos músculos, deixa o corpo e a mente num estado letárgico, quase catatónico. Liberta lágrimas mudas - saídas sabe-se lá de onde - que caem frias, pesadas e barulhentas, como correntes de um estranho cativeiro de solidão perene. É um estado de sítio: em que os pensamentos e os sentimentos se rebelam contra o seu criador. Nesse instante sinto-me, tão-só, um estrangeiro para com os átomos que me compõem: um pária.
(imagem retirada da internet)
Às vezes recebo uns emails que falam de amizade e de amor. São, por norma, escritos com muito sentimento e, nalguns casos, com elegância. No fim, porém, trazem uma espécie de feitiço: se, após o ler, eu não o reenviar a um determinado número de pessoas, vou ser infeliz durante um outro determinado número de anos. Eu já recebi muitos emails desses e, às vezes, leio-os. Mas nunca os reenvio…
 
Quando me sinto magoado, fecho-me. Fecho-me muito. Mas, hoje, apenas hoje, abro uma pequena fresta para poder passar uma só pergunta: quem me leva os meus fantasmas?
 
Atentamente,
José.

Um Agradecimento Tardio

Junho 23, 2007

Pensando bem, este blog é – falando com carinho mórbido e afecto doentio - uma sanita espiritual. É onde vomito as congestões do dia-a-dia e falo abertamente do que me vai na alma. Aqui não se aplicam as leis da Física nem a gravidade de Newton. Reina, pura e simplesmente, a Singularidade. Reina, alegadamente, a minha vontade de simples mortal. É um canto obscuro, um esgoto inquinado da internet e uma espécie de saneamento básico para o que resta da minha mente inquieta. É um novelo imundo de sentimentos, unidos por letras e palavras pegajosas, que vai crescendo com a autonomia de uma colónia de bactérias patogénicas.
 
Hoje dedico este post a uma pessoa especial. Uma pessoa que não sonha que tenho um blog e, portanto, não vai ver este agradecimento. Mas, apesar de tudo, não posso deixar de o expressar. É o que me vai na alma:
 
Admiro, contemplativo, a tua força. Uma força que é produto de uma vida preenchida de grandes escaladas, quedas, e desafios… desafios, para não dizer mais… Admiro-te pela energia positiva que me consegues transmitir quando estou fraco, pela sabedoria empírica e pela honestidade. É de realçar que, apesar de todas as dificuldades, não cedeste à hipocrisia. És uma pessoa que se pauta pela rectidão e coerência, e uma das poucas que praticam o que apregoam. Admiro-te pelos conselhos e palavras amigas que, sempre, reservas para mim. Não é tudo perfeito mas sei que, por mais pessoas que gravitem à minha volta, quando não consigo respirar, é contigo que vou ter. Aconteça o que acontecer, digam o que disserem, é o teu abraço que vai estar à minha espera. Obrigado por hoje me teres acolhido. Obrigado Carolina, por me teres tomado no teu regaço. Obrigado por veres que, também eu, por vezes, preciso de compreensão para os meus devaneios e angústias. Obrigado por, mais uma vez, teres acolhido este pobre e vadio vidalah.
(imagem retirada da internet)
Atentamente,
José.

Sinto Absinto

Junho 20, 2007

Hoje apetece-me morrer. Mas, tirando isso, estou óptimo. Não é que me apeteça suicidar nem coisa do género. O suicídio, por si só, parece-me ser demasiado abstracto e elanguescente para acalmar tanta dor. Está, portanto, fora de questão e terá de ser algo bem mais contundente. É difícil, no entanto, quantificar a dor que sinto. Mas, a Matemática, é algo de extraordinário e diz que a definição de medir é, nada mais, que comparar. Portanto, para ser possível perceber o quanto é anedótico o suicídio, como analgésico para a agonia que me desmembra, basta dizer que é como tomar um ramo de salsa para aliviar a super-dor da amputação selvática do coração. Bendita Matemática, que é uma luz clarividente que contrasta com a cegueira da humanidade. Mas, apesar da ajuda da Matemática, o problema de fundo persiste: encontrar um processo mais mórbido que o suicídio.
Chego ao fim do dia cansado. Faço um grande esforço, a toda a hora, para me manter vivo. E, depois, chega a noite e as coisas não melhoram. Pouso, pesarosamente, a cabeça estéril sobre a travesseira curada pelo sal das lágrimas e cerro os olhos. Tento adormecer mas, o único estado que consigo atingir, é sentir-me definhar, a morrer. Porém, na manhã seguinte, acabo sempre magoado por mais um despertar. É um ciclo solitário, escuro e asmático. De uma humidade espiritual e fantasmagórica que deforma os ossos. Não são sentimentos de circunstância, há razões para tanta angústia! Genéticas? Também, com certeza. Mas não só:
Nunca amei tanto alguém, como aquela mulher. E nunca alguém me fez tão mal como ela. Quando menos espero, eis que a crueldade gélida do seu machado me dilacera, uma vez mais, o peito flácido. Nunca mais vou conseguir confiar e nunca mais vou conseguir amar alguém. Nunca mais! Amputaram-me o coração e o que bate no lado esquerdo da cavidade torácica é apenas medo. Medo do mais puro, do mais vergonhoso, do mais cobarde. Um medo constante de voltar a sofrer uma dor que não suporto. Não consigo compreender o porquê de tanto mal, para uma pessoa que lhe fez tão bem? Hoje precisava dos braços emprestados de alguém. Precisava de uma mulher que me sussurrasse ao ouvido que não sou lixo, pois é como me sinto. Mas isso já são devaneios e é importante manter os pés na terra, e não perder a noção da realidade. Ainda assim, nem tudo está perdido porque, pelo menos, em todo este processo, consegui descobrir algo muito pior que o suicídio: o amor.
(imagem retirada da internet)
Atentamente,
José.

Talvez a questão não seja “se eu acredito em Deus?”, mas “se Deus acredita em mim?”

Junho 19, 2007

E se hoje eu acreditar em Deus? E se Deus chegasse à minha beira e, ao contrário do que é habitual, fosse Ele a pedir-me ajuda? E se Deus dissesse que se sente só, está deprimido e inconsolável? Se me dissesse que não consegue fazer nada de jeito? Se dissesse que tudo o que criou está destruído e não tem conserto? Se, em lágrimas, Deus me suplicasse por ajuda? Se dissesse que só queria morrer mas não pode, porque a sua condição de imortal não Lho permite?
(imagem retirada da internet)
O que diria eu a Deus? Será que eu O quereria ajudar?..
 
Atentamente,
ejail.

Sentido

Junho 18, 2007

É como um mealheiro de sentimentos e de estados de espírito. Onde deposito as minhas riquezas e regurgito as minhas pobrezas. Este é um canto onde se ri e onde se chora. Este é o lugar onde procuro mapear os labirintos da alma e descobrir onde me levam as emoções que se rebelam à razão. É um ponto de encontro para pensamentos dispersos. É uma fronteira onde os meus muitos fantasmas se corporizam.
 
Os puristas dizem que a amizade e o amor, quando verdadeiros, são imortais. Mas nós, que não somos deuses como eles, sabemos que não é bem assim. A amizade e o amor são como organismos vivos. Se não os alimentarmos, se não lhes saciarmos a sede, se não os estimarmos, eles acabarão por adoecer e, por fim, morrer. É como uma flor: por mais graciosa que seja, precisa de cuidados para manter a sua jovialidade. Tudo isto para dizer que já perdi amigos e amores. Algumas vezes por minha culpa, outras vezes nem por isso… mas sempre com muita mágoa. Mas que amizade ou que amor são esses, quando uma pessoa segue para a esquerda e a outra para a direita? Que amizade ou que amor são esses, quando uma pessoa se limita a seguir os passos da outra? A amizade e o amor só fazem sentido quando as pessoas caminham no sentido da convergência. Só assim florescem e se mantêm joviais.
 
É como um mealheiro de sentimentos e de estados de espírito. Onde deposito as minhas riquezas e regurgito as minhas pobrezas. Este é um canto onde se ri e onde se chora. Este é o lugar onde procuro mapear os labirintos da alma e descobrir onde me levam as emoções que se rebelam à razão. É um ponto de encontro para pensamentos dispersos. É uma fronteira onde os meus muitos fantasmas se corporizam.
 
Atentamente,
ejail.

Desnudado

Junho 16, 2007

O humor é uma manifestação legítima de inteligência. Porém o meu pseudo-humor não é, propriamente, engraçado. Se não faz rir não é inteligente. É um humor corrosivo e lúgubre, e não apresenta traços de originalidade relevantes. É escrito numa linguagem corrente e não revela significativa riqueza literária. É uma coisa sem vida e vazia.
 
Também os ensaios e as incursões que pratico pelos caminhos do pensamento aplicado, em que procuro desconstruir pequenos enigmas ou paradigmas do quotidiano, revelam-se, na maioria das vezes, inconclusivos. São devaneios de uma mente inquieta mas nem sempre lúcida. São desvarios de alguém que apenas procura uma explicação para as suas mágoas. E, desses exercícios, resultam composições pobres e pesadamente depressivas.
 
Eu sou, em suma, uma pessoa triste e, isolado, sinto-me um homem das cavernas. Platão não passou, em definitivo, por aqui para me libertar. Habito a escuridão e desengane-se quem pensa que este é um blog humorístico. É, antes, uma lápide em que vou carpindo hieróglifos desconexos para colocar sobre o meu túmulo. Sinto-me só. É um grito… Sinto-me terrivelmente só! Falido a todos os níveis… Talvez por tudo isto e por tudo aquilo que não disse, não me levar a sério, parece ser a expressão suprema da minha intelectualidade. A verdade é tão simples e tão óbvia que até mete dó.
 
Atentamente,
José.

Feiticeira

Junho 16, 2007

(imagem retirada da internet)

Mulher recta, de linhas curvas,

de ondas sinuosas,
de águas turvas,
de medidas desmedidas, libidinosas.
(imagem retirada da internet)
Mulher madura e menina,
de pele alva e macia,
de plena volúpia feminina,
de uma estranha forma de supremacia.
(imagem retirada da internet)
Mulher meiga, mulher perigosa,
mulher gostosa,
airosa,
fogosa,
jeitosa,
charmosa,
um botão de rosa.
Mulher: como manipulas o destino da minha prosa!..
(imagem retirada da internet)
Mulher felina,
Mulher que traças a minha sina.
(imagem retirada da internet)
Atentamente,
ejail.

“Achismos”

Junho 14, 2007

Ando a escrever demais. A ter opinião para tudo quando, na verdade, nada sei. Às vezes fico com a sensação de que tudo é vaidade. Tudo é uma questão de egos e de medos. Mas, no meu caso, é mais medo do que ego porque não há nada em mim de que me orgulhe. Se bem que, em certa medida, também o ego se esconde atrás de um medo: o medo de desaparecer, de ver a individualidade canibalizada pelo colectivo social. Há, no ser humano, uma vontade de integração e uma rebeldia que convivem lado a lado. Queremos pertencer a um grupo e, ao mesmo tempo, sermos únicos em relação aos elementos que o constituem. Já dizia José Régio: “(...)Não sei por onde vou, Não sei para onde vou - Sei que não vou por aí!”. Mas o meu medo não é o de desaparecer. É, talvez, o de ver as pessoas de quem gosto desaparecerem. De ver pessoas, de quem gosto, deixarem de gostar de mim. É o medo de ver chegar a solidão. Contudo confesso que, na equação, a incógnita que vai ganhando mais peso é a pergunta: será que ainda vale a pena sentir este medo?
 
Hoje deixei-me passear por um ou outro blog e li o que já sabia, o que todos sabem: há pessoas que alimentam o ego à custa do sofrimento que infligem a outras. Eu já senti na pele e não admito que tentem sequer fazer-me o mesmo. Esta é uma das razões que faz com que não consiga confiar em ninguém… Mórbido não é alimentar o nosso ego com pedaços de carne do coração de um outro ser humano. Mórbido é sentir prazer no acto. Mas este post é para ser ignorado, pois é como digo: ando a escrever demais e nada sei…
(imagem retirada da internet)
Atentamente,
ejail.

Prosas Feridas

Junho 13, 2007

Por falar em palavras...
 
A queda no seio deste éter doente,
perseguida pelos fantasmas da mente.
A queda do anjo imaginário da sorte,
puxado e sufocado por delírios sem norte.
 
Sem palavras, hum… Sem lábios,
sem os conselhos dos sábios.
Sem seres sagrados e supostos sacros ditados,
sem nada. Eu e os meus demónios jazidos, aqui deitados.
 
Encantado por serpentes encantadas,
pelo som do movimento dos seus corpos nas enseadas.
Rendido à evidência do veneno terreno,
bebido frio, pelo sangue anémico e ameno.
 
Desencantado pela existência incolor,
num interior obsoleto, um jardim de cinzas sem uma flor.
Desgastado pelo sono e pela erosão,
pela sede, a fome e o estigma da exclusão.
 
Prisioneiro das sebes da física e da gravidade mental,
recluso das monossílabas e da ferrugem das grades frias do metal.
Amarrado a pensamentos feitos e estranhos preconceitos,
numa teia, numa noite feia, num casarão vazio cheio de tolos insatisfeitos.
 
Oh velhos deuses desmiolados,
velhos filósofos, vocês estavam todos errados!
Foram trespassados por laivos de loucura,
quando foram esquecidos pela doçura e pelos gestos de ternura.
 
E agora? Já não consigo respirar, nem encontrar o ar
e não passo de uma escultura glaciar.
Lançar-me, outra vez, ao som das iradas harpas?
É a única maneira de aprender a voar: atirar-me das escarpas…
 
Um pássaro sem asas, despido de penas,
nu, sem poemas, um sem-abrigo, preso e desprovido de mecenas.
Sem coragem para se fundir com a paisagem,
p’ra deixar tudo para trás e seguir o seu caminho, a sua viagem.
 
Aqui jaz, escrito no limbo dos viandantes,
no lugar dos que não têm porvir ou antes,
uma história escrita no vento com tinta de nada,
sobre tudo e sobre nada, sobretudo de uma vida errada.
 
Avalancha de sentimentos que choras com pedras,
com a velocidade inatingível de féculas que medras,
turbilhão de agitação sem freios, a todo o carvão,
desaba, agora, sobre mim e irradia-me ao som de um trovão!
 
Não espero que entendam, nada espero.
Afinal, quem sou eu e o que quero?
 
Não sou nenhum poeta,
quanto muito, um falso profeta.
Um ser sombrio do escuro,
sem passado e sem futuro.
 
Eu sou notas de flauta
fugidas da pauta.
Eu sou sons graves
vagueando por enclaves.
Eu sou estrofes áridas.
Eu sou prosas feridas.
(imagem retirada da internet)
Atentamente,
ejail.

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