Animal
Fevereiro 01, 2026

Imagem retidada da Internet
Em referência ao último texto que escrevi, ainda estamos acima da linha d’água e os violinos continuam a tocar.
Normalmente, quando se aproxima uma catástrofe, é comum ver-se algumas pessoas soltar os animais, para que possam ter a possibilidade legítima de lutarem por uma chance de sobrevivência. Dentro desse espírito, hoje decidi soltar o meu animal político e, desse modo, devo prevenir os incautos, ou os mais distraídos, para o perigo dessa besta selvagem e descontrolada. Fujam!
Brincadeiras à parte, o assunto é sério. A história da humanidade está repleta de episódios negros e degradantes, que envolvem escravatura, tortura e genocídios. Analisando essa mesma história, não é difícil perceber que, independentemente da justificação que é apresentada para cada um dos inúmeros episódios, a raiz das causas costuma combinar loucura, maldade, ganância, ressentimento e intolerância religiosa ou política.
Não é difícil perceber que o populismo encontra território fértil no ressentimento. O populismo é um animal carnívoro e, para crescer, tem de se alimentar. Precisa de caçar presas, precisa de bodes expiatórios. Não importa se são os judeus, ciganos, imigrantes, ou os infiéis. Podem ser os ricos, ou os que não querem trabalhar. Podem ser os pretos, os brancos, os vermelhos, ou os amarelos. Não importa o bode, desde que tenha sangue para alimentar os elos da corrente ideológica. Elos que prendem os indivíduos, que alimentam e inflamam as massas.
O populismo costuma ter um messias e uma equipa coesa de idólatras. O líder populista é um ser carismático, que tem uma missão e um propósito maior. Seja para implementar a vontade de um deus, restaurar a glória de um passado saudoso, ou recuperar esperanças defraudadas. Esse propósito, como é maior, justifica o uso inquestionável de todos os meios, para que possa ser atingido. Quem questionar, discordar, ou se atravessar no caminho, só pode ser atropelado, porque é um ignorante e um inimigo, que quer atrasar e atrapalhar a implementação da sociedade perfeita.
Na religião, ou na política, temos muitos maus exemplos que nascem dos extremismos. Quando um indivíduo se deixa extremar, está a abdicar da sua capacidade de questionar. Está a abdicar da sua liberdade e a deixar-se corroer e diminuir pelo ressentimento. Pessoalmente, não sei se há algo como a Virtude, mas, se houver, dificilmente estará num extremo, seja ele de esquerda ou de direita.
Tive o privilégio de ler alguns livros, como “A Quinta dos Animais”, de George Orwell – que aborda, de forma figurada, a falácia do comunismo –, ou, do mesmo autor, “1984” – que remete para o funcionamento da máquina dos regimes totalitários. Li, também, “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley – que promove uma perspetiva distópica sobre uma “ditadura suave” – e, recentemente, movido pelo que tenho observado crescer, nos EUA e nalguns países europeus (Portugal incluído), tive a curiosidade de ler um pequeno ensaio, que recomendo: “O Eterno Retorno do Fascismo”, de Rob Riemen.
Aquilo que leio, penso, ou escrevo, não faz muita diferença. A História mostra que, a partir de um certo volume, o peso das massas ideológicas atropela tudo e todos os que se colocam na frente. O populismo esvazia-se, só depois de extinguir o que o alimenta. Depois de sobrar apenas destruição, descrença e desolação. Não sei se já passamos o ponto de não-retorno. Não serei eu a pessoa indicada para procurar esse tipo de respostas. Também não quero parecer um profeta da desgraça, e apontar a uma besta e à chegada do fim do mundo. Porque, simplesmente, não tenho atributos para ser um líder carismático. Vejo-me mais como um operacional da Missão Impossível: esta mensagem vai autodestruir-se dentro de poucos meses. O que me leva a escrever é o medo. O medo de me tornar estúpido. Porque a estupidez é como um vírus, que se propaga de forma galopante e ninguém está imune. Porque um estúpido não sabe que é estúpido, nem sabe questionar se é estúpido.
Não queria terminar, sem abordar, de forma crítica, um dos motivos que levou ao fim do Sapo Blogs. Na publicação “https://blogs.blogs.sapo.pt/descontinuacao-do-sapo-blogs-259383”, encontrei a frase: “O surgimento das redes sociais, associado à imediatez permitida pelos smartphones, transformou a forma como comunicamos e criamos no meio virtual, diminuindo aos poucos o apelo e a utilidade dos blogs como plataforma de expressão”. A minha experiência – que vale o que vale – diz-me que no sapo blogs encontro um sítio, sobretudo, de reflexão e, nas redes sociais, não preciso de procurar para tropeçar em muita estupidez.
Não sei se fiz bem, soltar o animal político...