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Quinta Dimensão

Silêncio por linhas tortas

Julho 17, 2023

comboio.jpg

 

Só, junto a esta ferrovia,
esmoreci quando não previa.
Só os comboios sabem onde vão,
o resto é fuligem e carvão.

 

A ferrugem dos carris nas linhas,
que entram no Douro e nas vinhas.
Socalcos, ravinas e aldeias
e fumo que tolda as ideias.

 

A solidão oprime cá dentro,
entre pensamentos, que esventro.
Castanheiros, Carvalhos e Pinhais,
golpes de mil infinitos punhais.

 

Porto a Pocinho, via Régua,
vidros refletem olhos e água.
Entre montes, fixo uma serra
e, calado, ouço “pouca terra”.

Maestro

Julho 13, 2023

Soldado.png

Tenho mais recordações da infância que do dia de ontem. Talvez porque, em determinada altura da vida, dei por mim a tentar esquecer mais do que queria lembrar. Ainda assim, são memórias com quarenta anos. E, com tanto tempo passado, os fungos da imaginação, ou os engodos da mente, corroem a pureza dos factos, até que as certezas se tornam incertas e as lembranças se esfumam ou se confundem. O que não se esqueceu, funde-se e reconfigura-se com realidades alternativas. Às mãos de uma mente dispersa, a realidade pode ser extremamente porosa ao reino da ficção. Assumo, portanto, que ao procurar lembrar, corro o sério risco de cometer graves imprecisões.

 

Na praceta, protegida pela estátua do Soldado Desconhecido, desaguam quatro caminhos que se encontram num caprichoso cruzamento. O saudosismo da Rua Guerra Junqueiro, que parece extraído das velhas minas de São Pedro da Cova, passa o testemunho à Doutor Severiano que, logo de seguida, o perde na Carvalha. Na perpendicular, a infindável Avenida General Humberto Delgado, que brota do centro de Gondomar, banha o colégio dos Capuchinhos e rende-se, por fim, ao paralelo da Rua do Valado, que aponta ao pavilhão de Hóquei. Do lado direito do Soldado e sob proteção da sua G3, está a decrépita mercearia do Senhor Alberto e da Dona Odete.

 

Antigo casebre mercantil, recebe os escassos clientes, com uma pequena porta e uma breve escadaria. Meia dúzia de passos em frente, sobre um chão avermelhado, oculto por alguma sujidade e muita erosão, um curto balcão em mármore, com a altura da cintura de um adulto médio. Assenta sobre um móvel de madeira comprido, que incrusta uma janela em vidro, para exposição de broa de milho e afins. Na extremidade esquerda, para quem entra, o móvel exibe uma abertura e, sobre ela, a mármore dá lugar a uma espécie de ponte levadiça em madeira, por onde apenas o Sr. Alberto e a D.ª Odete têm permissão de passar. Sobre o mármore assenta uma balança de pratos, de um branco, tão pretérito, que se converteu ao sépia. Ao lado da balança, uma ninhada de pesos enferrujados e, logo a seguir, uma vitrina claustrofóbica, pouco maior que uma caixa de pão. Dentro da caixa de vidro, uma parca variedade de pastéis. Os bolos abrigam-se de um bando de moscas que, desprovidas de mais nobres sentidos, gastam a vida a voar em círculos. Do lado de lá do balcão repousam, guarnecidos por manguitos, os braços lentos do Sr. Alberto, que se juntam aos papéis rabiscados por contas de ocasião e livros razão, com as dívidas dos fregueses que só compram fiado. O velho merceeiro é meu amigo, mas obriga a minha mãe a recordar-me de forma veemente, sempre que me envia a fazer recados, que não quer o troco em rebuçados. Atrás do seu corpo pesado, uma porta de duas abas, encerra todo um manancial de produtos, que se escondem dos olhares de pessoas estranhas ao serviço. Muitos são artigos desconhecidos. Alguns estão esquecidos, debaixo de uns outros, inacessíveis. Só aparecem quando são expressamente pedidos por alguém informado. Outros, ainda, jamais verão a luz do dia. Do lado de cá, à direita da entrada, mais ao fundo, uma montra generosa dá para a rua. Ostenta meia dúzia de brinquedos, cuja cor fora já carcomida pelo Sol e recebe os raios de luz, que se prolongam até uma pequena mesa no canto. A luz alumia-lhe o verniz estalado que, à vista desarmada, falhou em proteger os veios e os nós da madeira. Um pequeno banco manco, que se esconde sob a mesa, é o lugar cativo que, todos os dias úteis das semanas inúteis, é religiosamente reclamado pelo Serra.

 

Serra, só de nome, porque é um homem de estatura média e aspeto franzino. Deve ter os seus 50, mas os problemas de saúde fazem com que pareça mais velho. Dizem que só tem um pulmão e que, por estar tão dependente da bebida, um dia apanhou uma congestão por beber água. Mas o povo é um pródigo criativo, capaz de inventar merdas que não lembra ao diabo. Veste uma gabardina leve, bege, que lhe confere um ar de inspetor. Os óculos, com lentes garrafais, elevam-no a um patamar de intelectualidade, apenas desfeito por lamentos entre goladas de Aldeia Velha. Uma boina, em bombazina, num padrão de quadrados e matiz castanhos, completa a indumentária e dá-lhe uma certa altivez, uma nobreza intrínseca que emana dos perdidos. A memória não permite que me recorde de uma única palavra que o Serra tenha dito, mas guardo-o, para mim, como um poeta. Não esqueço que tolerava e simpatizava com um pirralho travesso e, do pouco que conheci, parecia ser um homem bom, possivelmente com boas palavras.

 

Mais ou menos a meio, o pequeno copo de bagaço exibe uma ténue linha azul, possivelmente com o intuito de recomendar uma dose que não deve ser excedida. A recomendação não passa disso mesmo e, depois de alguns copos excedentários, o Serra sai da mercearia. Com a coragem de um comandante, que é enviado para a guerra, apodera-se do cruzamento e assume uma postura sóbria e autoritária. Levanta a palma da mão direita e faz com que os carros, que vêm da avenida, parem e formem uma fila. Com o outro braço, incentiva o troleicarro, de dois andares, a subir a Guerra Junqueiro. Desengonçado e com as hastes bamboleantes, o pesado de passageiros, agarra-se, como pode, aos cabos aéreos que traçam o caminho. A corrente elétrica impulsiona a besta e, esta, faz o que lhe mandam. Passam, também, um par de carros que seguem logo atrás, até que, aos restantes, é-lhes ordenado que parem. Depois as outras ruas, até que, por fim, cede à pressão das buzinas dos condutores impacientes que aguardam na avenida. Repete alguns ciclos e consegue uma surpreendente fluidez na circulação do cruzamento. Passados uns minutos, já com alguns escudos no bolso, volta à mesa da mercearia. Senta-se no banco e, enquanto conversa com o Sr. Alberto, observa o pequeno cálice. A aguardente jorra da garrafa e afoga a ténue linha azul.

 

Nunca percebi como conseguia que todos os condutores o respeitassem. Como conseguiu dominar as feras que possuem os veículos e os submetem à selva das estradas. E como eu invejava o trabalho de sinaleiro que o Serra tão bem fazia… Ao longo dos anos, o cruzamento foi alvo de vários acidentes, mas – ficção ou realidade – não me lembro de um único com o Serra a orquestrar o trânsito.

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