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Quinta Dimensão

Eucaliptos

Abril 19, 2023

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Não sendo carpinteiro, suponho que é melhor que o Pinho seja bem tratado.

Independentemente de simpatizar - ou não - com Manuel Pinho, ou da opinião que tenho do caso, tenho de reconhecer que é vítima de um processo Kafkiano. Parece que estamos, no entanto, perante o culminar de uma investigação que dura há mais de uma década e - até prova em contrário - haverá julgamento. Não quero, também, beliscar o direito constitucional da presunção de inocência. Afinal de contas, estou longe de ser ou parecer a Autoridade Tributária. Posto isto, vi a entrevista que Manuel Pinho deu à RTP, e percebi porque nunca lhe achei qualidades para ocupar o cargo de Ministro da Economia. Um país, como Portugal, precisa de um Ministério da Economia com capacidade de liderança e, isso, Manuel Pinho não tem. Pinho diz que ordenou que, enquanto tivesse funções públicas, o GES não lhe pagasse 15 mil euros, todos os meses. Os “sacanas” não respeitaram a ordem. Não só minaram a sua liderança, como lhe faltaram ao respeito. É quase como aquelas empresas - tipo EDP - que aproveitam a facilidade do débito direto para nos retirarem dinheiro da conta bancária... mas ao contrário. Ou as despesas de manutenção de conta - o Novo Banco, para dar um exemplo - que, todos os meses, nos subtraem o saldo... mas ao contrário. Aqui a questão primordial não é se retiram ou acrescentam dinheiro, mas a petulância de mexerem na nossa conta sem autorização. Uma pessoa não repara e depois, sem percebermos como, vemo-nos em trabalhos.

Estou solidário.

 

 

Anti-histamínicos

Abril 17, 2023

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Tenho andado com alergias. Não sei porque escrevo este texto, mas é possível que não esteja totalmente em mim. Suponho que a inalação de pó de pinheiro terá ultrapassado a dose de segurança recomendada pela OMS e me possa encontrar sob efeito de algum desequilíbrio hormonal.

 

No livro de Génesis, Deus proibiu o ser humano de comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

"

A serpente, que era o mais astuto de todos os animais selvagens criados pelo Senhor Deus, disse à mulher: «Com que então Deus proibiu-vos de comerem do fruto de todas as árvores do jardim!»

Mas a mulher respondeu-lhe: «Nós podemos comer o fruto das árvores do jardim. Só nos proibiu de comer do fruto da árvore que está no meio do jardim. Se tocássemos no seu fruto, morreríamos.»

A serpente replicou-lhe: «Não têm que morrer. De maneira nenhuma! O que acontece é que Deus sabe que no dia em que comerem desse fruto, abrir-se-ão os vossos olhos e ficarão a conhecer o mal e o bem, tal como Deus.»

A mulher pensou então que devia ser bom comer do fruto daquela árvore, que era apetitoso e agradável à vista e útil para alcançar sabedoria. Apanhou-o, comeu e deu ao seu marido que comeu também.

Nesse momento, abriram-se os olhos de ambos e deram-se conta de que andavam nus. Coseram então folhas de figueira, para com elas poderem cobrir a cintura.

Nisto ouviram que o Senhor Deus andava a passear no jardim, pela brisa da tarde, e o homem foi-se esconder com a sua mulher no meio das árvores do jardim.

O Senhor Deus chamou pelo homem e perguntou: «Onde estás?»

O homem respondeu: «Apercebi-me de que andavas no jardim; tive medo, por estar nu, e escondi-me.»

Deus perguntou-lhe: «Quem é que te disse que estavas nu? Será que foste comer do fruto daquela árvore que eu tinha proibido?»

O homem replicou: «A mulher que me deste para viver comigo é que me deu do fruto dessa árvore e eu comi.»

O Senhor Deus disse então à mulher: «Que é que fizeste?»

A mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi.»

"

Na antiguidade, em especial na mitologia grega, a serpente era tida como representante da sabedoria. É interessante verificar que foi a serpente - aqui confirmada como o mais astuto de todos os animais selvagens - que seduziu a mulher a abrir os olhos ao conhecimento. A mulher, desejosa por sabedoria, ousou quebrar as regras e partilhou a sua descoberta com o homem. Depois é o que se conhece. Ao longo da história assistimos a guerras, longas e sangrentas, entre religião e ciência. Assistimos, por parte de muitas religiões, a uma diabolização da mulher e até das próprias serpentes. Gostaria, no entanto, de retirar algumas notas sobre este equívoco milenar:

  1. Deus - que tudo sabe - saberia, enquanto Pai, que quando proibimos um filho de fazer algo, deparamo-nos com uma taxa de insucesso extremamente elevada. Fica a questão: Poderá Deus ter agido de forma premeditada?
  2. Quando Adão e Eva se deram conta de que andavam nus e coseram folhas de figueira para cobrirem a cintura, estavam ˗ na minha humilde opinião ˗ a dar os primeiros passos naquela que viria a ser a bilionária indústria da moda.
  3. Interessante notar que, quando Deus foi pedir responsabilidades, o homem culpou a mulher e a mulher culpou a serpente. Este padrão de assobiar para o lado e passar de responsabilidades não acontece apenas nas Comissões Parlamentares de Inquérito.

 

Por fim, gostaria de invocar o poeta "Charles Baudelaire" e o seu poema "A serpente que dança".

Para muitos homens será pecado. Para Deus, creio, será divino:

"

Em teu corpo, lânguida amante,

Me apraz contemplar,

Como um tecido vacilante,

A pele a faiscar.

 

Em tua fluida cabeleira

De ácidos perfumes,

Onde olorosa e aventureira

De azulados gumes,

 

Como um navio que amanhece

Mal desponta o vento,

Minha alma em sonho se oferece

Rumo ao firmamento

 

Teus olhos que jamais traduzem

Rancor ou doçura,

São joias frias onde luzem

O ouro e a gema impura.

 

Ao ver-te a cadência indolente,

Bela de exaustão,

Dir-se-á que dança uma serpente

No alto de um bastão.

 

Ébria de preguiça infinita,

A fronte de infanta

Se inclina vagarosa e imita

A de uma elefanta.

 

E teu corpo pende e se aguça

Como escuna esguia,

Que às praias toca e se debruça

Sobre a espuma fria.

 

Qual uma inflada vaga oriunda

Dos gelos frementes,

Quando a água em tua boca inunda

A arcada dos dentes

 

Bebo de um vinho que me infunde

Amargura e calma,

Um líquido céu que se difunde

Astros em minha alma!

"

Cinzento

Abril 08, 2023

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Quinta-feira, fim de tarde. Cabeça cheia, coração apertado, respiração pesada e umas gotículas de desânimo. Desço para a garagem e, finalmente, lubrifico a corrente da mota. Há um bom par de dias que inventava desculpas para não o fazer. Amanhã preciso de atacar a estrada e perder-me nos mistérios das suas curvas. Dentro do arrumo, descansa, há mais tempo do que devia, a bicicleta. Trago-a para fora, limpo a corrente das impurezas, que teima em acumular, lubrifico-a e revigoro os pneus com uma lufada de ar fresco. Está escolhido o veículo. Vou pedalar até os músculos doerem tanto que me vou esquecer dos motivos que me levaram a pedalar.

Sexta-feira, início da manhã. Fisicamente não estou preparado para chegar ao destino. Pensei-o mas não o disse, principalmente a mim. Ida e volta serão cerca de 200Km e nunca percorri tamanha distância de bicicleta, nem mesmo quando estava em melhor condição. Capacete, luvas, pedais encaixados e partida. São 6H45 e a lua ainda se banha na última luz que o Sol lhe empresta.

Não me considero ciclista, apenas alguém que gosta de andar de bicicleta e que o faz esporadicamente. Muito menos me considero fotógrafo, pois nem máquina fotográfica tenho. Tiro pouquíssimas fotos e todas com o telemóvel. Ainda assim aprecio a arte de fotografar e, quando tropeço em imagens singulares, belas ou feias, se me inquietam, tento perpetua-las para além do esquecimento e das falhas da memória. É, porém, extremamente difícil captar, num quadro e num instante, a alma daquilo que os sentidos experimentam. Dentro das minhas limitações, procuro não ficar demasiado distante dessa fatalidade. Neste caso, não deixo que o sentimento constante de que “podia ficar melhor” me impeça de continuar a falhar.

No início do ano fui, de mota, com o meu irmão, a Vila Praia de Âncora. Lembro-me de lhe ter dito, enquanto tomávamos café, o quanto gosto da freguesia e dos arredores. Disse-lhe, também, que gostaria de lá ir de bicicleta mas que não conseguia. Vejo, agora, que talvez tenha sido nesse instante que o meu inconsciente, silenciosamente, abraçou o desafio.

Ao longo da vida tenho colecionado um histórico razoável de falhas, derrotas e desistências. São marcas que pesam e, muitas vezes, são como uma âncora que me prende a uma espécie de lodo. São inúmeros os dias em que me arrasto. Enquanto pedalava, assaltou-me, várias vezes, o pensamento da desistência. Pode ser algo pequeno, com pouca importância, mas ontem cumpri. Para além de cumprir, ainda deu para tirar umas quantas fotografias (que podiam ter ficado melhor). E não há músculo que não doa mas, graças ao Sol, nada dói mais que a pele queimada e vermelha dos braços e das pernas. Posso dizer que a viagem me trouxe alguma cor e que me sinto menos cinzento.

 

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