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Quinta Dimensão

Amador

Julho 22, 2022

NGC2336-galaxy.en.jpg

Sonhos dentro de pesadelos, dentro de sonhos.

Seremos tudo isso ou vice-versa.

Aglomerado de átomos estranhos,

centelha que se apaga e dispersa.

 

Talvez filhos da matemática,

mas não números!

Quem somos, nesta estranha dinâmica?

Senão meros pseudo-seres inseguros.

 

Por nada saber: não sei que não sei quem sou.

Incerto dia, num qualquer caos, o acaso me rimou

e algo (ou alguém) me pensou.

Porventura, nesse instante, algo (ou alguém) me amou.

Sísifo - Poema de Miguel Torga

Julho 22, 2022

miguel-torga.png

Recomeça...

Se puderes

Sem angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...

Ítaca

Julho 19, 2022

20220705_205600.jpg

Ítaca - Poema de Konstantínos Kaváfis (tradução: Jorge de Sena)

 

Quando partires de regresso a Ítaca,

deves orar por uma viagem longa,

plena de aventuras e de experiências.

Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,

um Poseidon irado - não os temas,

jamais encontrarás tais coisas no caminho,

se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime

teu corpo toca e o espírito te habita.

Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,

Poseidon em fúria- nunca encontrarás,

se não é na tua alma que os transportes,

ou ela os não erguer perante ti.

 

Deves orar por uma viagem longa.

Que sejam muitas as manhãs de Verão,

quando, com que prazer, com que deleite,

entrares em portos jamais antes vistos!

Em colónias fenícias deverás deter-te

para comprar mercadorias raras:

coral e madrepérola, âmbar e marfim,

e perfumes subtis de toda a espécie:

compra desses perfumes o quanto possas.

E vai ver as cidades do Egipto,

para aprenderes com os que sabem muito.

 

Terás sempre Ítaca no teu espírito,

que lá chegar é o teu destino último.

Mas não te apresses nunca na viagem.

É melhor que ela dure muitos anos,

que sejas velho já ao ancorar na ilha,

rico do que foi teu pelo caminho,

e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

 

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.

Sem Ítaca, não terias partido.

Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

 

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.

Sábio como és agora,

senhor de tanta experiência,

terás compreendido o sentido de Ítaca.

Mariquices

Julho 18, 2022

mariquices.png

Esporadicamente lembro-me da minha professora de Química do Ensino Secundário. A professora Raquel. Recordo os seus termos pitorescos: como "Cálculos Estequiométricos" ou "Mariquices", este último para designar questões menores, de importância menor, que desviam o foco da questão principal.

Antes de continuar, convém-me expor uma pequena Declaração de Interesses (ou desinteresses):

Mergulhando nas profundezas da memória, percebo que desde cedo me defini sexualmente - ainda que de forma inconsciente - como heterossexual. Posso afirma-lo após uma detalhada introspeção, feita esta manhã, enquanto conduzia para o trabalho. Uma sessão de auto-hipnose em movimento enquanto me recordava do quanto ansiava por ver, na televisão a preto-e-branco, as atuações das "Doce". Na altura não sabia que era uma "Girls Band". Nessa tenra idade nunca senti a mesma vontade avassaladora de ver, por exemplo, o "Quarteto 1111". Para mim não são necessárias mais provas para que possa afirmar perentoriamente a minha heterossexualidade.

Hoje, com o peso de mais alguns anos em cima do lombo, após o consumo de toneladas de carne carregadas de hormonas sintéticas, peixes plastificados com molho de chumbo e consideráveis doses de soja transgênica, continuo a ter a mesma convicção… mas já lhe atribuí mais importância. Na minha opinião - que vale tanto como menos de nada - algumas sociedades têm propensão para generalizarem e extrapolarem pormenores. Entre essas generalizações, temos a questão da Sexualidade. A Sexualidade deveria ser apenas um dos muitos vetores que nos definem enquanto indivíduos únicos. Creio que não nos deveríamos focar tanto na questão da orientação sexual e exacerba-la, ao ponto de ocultarmos sob a sua sombra inflada, a questão que realmente deveríamos cuidar e defender: o direito à liberdade individual de cada um.

Parece-me - e estou quase sempre errado - que se tem vindo a obter alguns progressos na defesa de direitos relacionados com as questões relativas à Sexualidade, mas, em simultâneo, temos vindo a perder a nossa verdadeira identidade, reduzindo-a e catalogando-a em estereótipos simplistas. Temos estado, inclusive, a sacrificar a "sagrada" Liberdade de Expressão. Suponho que, a partir deste momento, corro o risco de, daqui a uns poucos anos quando for famoso (para mim ser famoso é ter mais que «sem» seguidores no blog) ser “Cancelado”... ou, com a crescente radicalização, "Vaporizado", nos termos de Orwell.

É relativamente fácil criticar e, pessoalmente, reparei que quanto menos sei e quanto menos penso sobre determinado assunto, mais facilmente o consigo criticar. Prefiro, portanto, servir-me da autocritica e procurar cultivar a compreensão. Por isso não escrevo este pequeno texto para criticar as orientações sexuais, os ataques à liberdade de expressão ou outras quaisquer liberdades individuais. Quero, apenas, manifestar uma breve frustração linguística:

Prende-se com o acrónimo que alguém (por ignorância própria, não sei quem) escolheu para designar as pessoas sexualmente diferentes do dito "normal": "LGBTQIA+". Parece-me, honestamente, o layout de um teclado, como "QWERTY" ou "AZERTY" e é uma expressão sem qualquer lubrificação oral: difícil de decorar e mais difícil de verbalizar ou manter numa conversa. Uma pura falta de estética linguística, de gosto duvidoso e falta de imaginação. Podíamos, se é que posso sugerir, regressar à questão do Sexo dos Anjos, e usar, por exemplo, apenas a palavra "Anjo" em oposição a "LGBTQIA+". Os anjos não se definem pelo “sexo”, não se reduzem a essas “Mariquices”. É certo que alguém (da Opus Dei, por exemplo, mas não só) poderia, à posteriori, e servindo-se de alguma malícia, sugerir que seriam anjos caídos e passariam a usar o termo “Demónios”. Já me estou a autocriticar mas, de facto, a ideia parecia ser melhor do que realmente é. Ainda assim, numa perspetiva de que somos capazes de nos movimentarmos num espectro que vai do melhor ao pior, o que somos nós, senão uma mescla de anjos e demónios? Umas vezes anjos, outras demónios. A maior parte das vezes ambos ou nenhum. Com certeza é que não somos acrónimos pomposos e muito menos um tijolo de uma categoria redutora. Somos, todos nós, apenas humanos. Mas humanos inteiros.

Por vezes sinto que esquecemos o essencial para nos perdermos na densa floresta dos acessórios. Mas não deixa de ser um sentimento de alguém perdido.

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