Segunda-feira, 2 de Julho de 2007
Mar Morto
Este é apenas mais um dos pouquíssimos contos que escrevi. Já tem uns tempos mas hoje deixo-o aqui, porque me recorda que as palavras de nada valem. Um amigo não precisa de falar. Um amigo está presente ou, pelo menos, não abandona. Mas um amigo é, talvez, alguém que não existe. Analisando friamente a questão, creio que, tanto a amizade como o amor, sucumbiram ao mais puro egoísmo. Estou tão cheio de palavras e, no entanto, sinto-me tão só… sinto-me tão cansado… sinto-me a secar. Este conto é uma investigação pessoal pelo campo da pura especulação e imaginação. Nada disto está devidamente documentado. Procuro, neste exercício, descobrir o momento exacto em que morreram a amizade e o amor. Procuro o momento exacto em que o egoísmo triunfou.
(imagem retirada da internet)
 
Mar Morto
 
Mar morto… Era uma vez um enorme mar: imponente, orgulhoso e vigoroso. Morava longe de tudo e tudo o que conhecia era o interior dos seus domínios. Com excepção de uma pequena rocha, situada no seu centro, tudo era coberto pela enorme porção de água. Misteriosamente, por mais altas que fossem as ondas ou por mais cheias que fossem as marés, a rocha era sempre poupada à fúria das águas e mantida à superfície.
 
Num dia, diferente de todos os outros, choveu. A chuva escorregou e penetrou por uma estreita fissura da rocha e tocou uma pequena semente. A semente havia sido transportada acidentalmente por uma ave perdida, num tempo esquecido, durante uma viagem fatídica. Ao toque da chuva, uma pequena flor brotou de um casulo adormecido. O milagre da vida! De dia para dia foi crescendo, tornando-se cada vez mais bonita. Era especial e única naquele mundo agreste. Sozinhos, a flor e o mar, começaram a falar-se e, com o tempo, tornaram-se grandes amigos. E o tempo foi passando… Durante o tempo que passou, os elos de amizade que os uniam foram-se tornando mais fortes e os muitos sentimentos fundiram-se num só e, entre eles, nasceu o amor. Todos os dias, pela manhã, ela abria as suas pétalas e presenteava-o com a sua extraordinária beleza. Ele deixava-se seduzir pelo seu perfume. Era transportado para as mais belas fantasias, onde habitavam os sonhos coloridos pelos desejos femininos da flor.
 
Passaram-se anos e os dias perfeitos e amenos deram lugar a dias quentes e febris. O Sol, moderado, que sempre trouxera a vida, tornara-se numa ameaça para a tenra planta. Atingida pela ira incompreensível do Sol, ela dirigiu-se então ao mar e pediu-lhe uma gota de água doce para que pudesse saciar a sede. Nunca ninguém lhe pedira uma gota de água doce. Mergulhou em si mesmo e procurou no seu interior. Esquadrinhou cada gota do seu corpo à procura de uma que fosse doce. Desesperado, contorceu-se e revirou-se, mas no meio de tanto esforço, ele sabia, para seu desgosto, que a busca havia de ser vã e infrutífera. Não estava na sua génese, não era essa a sua natureza. Quando saiu de si mesmo, o mar voltou-se para a rocha, mas a flor havia morrido e estava deitada sobre a pedra dura. Era como se tivesse adormecido enquanto esperava, tranquila, pelo regresso da vida.
 
Muitos dias nasceram e outros tantos morreram, num genocídio tão rotineiro, que passa despercebido aos deuses deprimidos pela eternidade. Mas nesse intervalo de tempo esquecido, o mar foi secando e acabou por dar lugar a um enorme deserto, e muitas lendas foram criadas a seu respeito.
 
Um dia, muitos dias depois desta história, um respeitado grupo de arqueólogos resolveu investigar e, de uma vez por todas, descobrir se alguma das lendas era verdadeira. Após anos de uma longa e árdua investigação, os cientistas publicaram as suas conclusões numa pequena e desacreditada revista arqueológica. Diz, quem leu, que no texto estava escrito algo parecido com outra lenda: O mar pensou para si – Para quê tanta água, se nem uma única gota serviu para saciar a sede da minha amada? – Chorou de seguida toda a sua água, secou e morreu. No seu coração de pedra nasceu, um dia, uma bela e vaidosa flor cheia de vida. No seu coração de pedra nasceu, um dia, a amizade e o amor. Mas o Sol, ardendo em ciúme, não se compadeceu e roubou a vida à frágil flor. O Sol ficou tão zangado que, ainda hoje, continua a escaldar a rocha e as areias de um deserto vivo, o leito de um viúvo mar morto…
(imagem retirada da internet)
Atentamente,
ejail.

sinto-me: Solitário

publicado por ejail às 19:30
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Sexta-feira, 29 de Junho de 2007
Coração de Pedra
Continuo sem conseguir falar. Continuo fechado. Talvez, numa espécie de casulo, em metamorfose: ashrayaparavrtti. Escrevi este humilde conto, num dia em que a esperança parecia escassear...
(imagem retirada da internet)
 
Coração de Pedra
 
Agora volto às rimas da melancolia. Os sonhos são como o canto das sereias e eu não me consigo deter. Chamam por mim dia e noite e deixo-me seduzir, acabando, quase sempre, por acordar num poço de lágrimas:
 
– De onde vem esta água salgada? – Pergunto.
– Foste à fonte do amor, encher o coração, mas no regresso quebraste-o e verteste todas as suas lágrimas. – Responde a tristeza.
– Por que não me concedes outro coração mais forte e permites que o volte a encher na mesma fonte? – Replico, quase ansioso.
Mas, de imediato, o mar encapela-se e as sereias irrompem na conversa:
Não! Reúne todos os pedaços, cola-os e volta à fonte, mas a maldição não te abandonará! No regresso, de novo, o partirás.
– Porque me fazem isso? – Pergunto já inconsolável e em desespero.
– Para que não fiques como eu. – Responde-me uma pedra. – Uma pedra não chora, mas também não ri. Não sofre mas também não sente. Junta sempre com paciência e mestria todos os pedaços quebrados do teu coração. Um dia terás força para vencer o canto das sereias e enganar a tristeza. Eu sou uma pedra e as pedras existem há milhares de anos, e sabem, portanto, do que falam.
 
Então penso para mim:
 
“As pedras são fortes e resistem, com bravura, ao passar do tempo. Sempre fui um apreciador das pedras, pois imagino que, tendo elas vivido tantos milhares de anos e presenciado tantos acontecimentos, sejam sábias e excelentes contadoras de histórias. É preciso saber escutá-las. Falam, melhor do que ninguém, nos hiatos do silêncio. Só espero ser homem bastante e ter forças para seguir o conselho da pedra.”
 
E assim se começa a construção… de um coração de pedra.
 
Atentamente,
ejail.

sinto-me: Pedrado...

publicado por ejail às 12:32
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Quinta-feira, 28 de Junho de 2007
O Encantador de Serpentes

Hoje queria falar mas não conseguia. As ideias misturam-se sempre que quero dizer alguma coisa importante. Não consigo ser coerente e muito menos perceptível. Sobra-me a escrita que, embora medíocre, é o meu único meio para quebrar a solidão. Quase não escrevo contos. Este já foi escrito em Abril mas fui busca-lo porque retrata bem o que sinto hoje…

(imagem retirada da internet)

 
O Encantador de Serpentes
 
Esta história nunca aconteceu. Passou-se em terras do oriente mas poderia passar-se em outro qualquer lugar. Passou-se há centenas de anos atrás mas poderia, perfeitamente, acontecer hoje. Narra a ventura de um homem especial mas poderia, também, ser a história de um qualquer homem comum.
 
Era uma vez um homem humilde que habitava um modesto casebre com a sua esposa. Viviam sós e não tinham filhos, porque a mulher era estéril, mas o amor que os unia era fecundo. Um era o tesouro do outro e, nessa perspectiva, como poderiam ser pobres? As dificuldades eram grandes mas, para quem ama, nunca são maiores que o coração. Apesar dos escassos recursos materiais pode dizer-se que viviam felizes.
 
O que tornava este homem especial era a forma como ganhava o pão do dia-a-dia. Quando jovem, vagueou com seu pai por terras longínquas, numa jornada em busca do auto-conhecimento e das riquezas interiores. Passou por países como a Índia, o Nepal e a China, chegando mesmo a alcançar a longínqua fronteira da Mongólia. Foram anos difíceis mas, por aquilo que aprendeu, só poderia ter consigo um sentimento de gratidão. Durante essa extensa viagem, estiveram acampados durante largos meses, numa remota localidade Indiana, onde conheceram um velho brâmane errante que sabia dominar as serpentes. Para dominar uma serpente – dizia ele – é preciso entender que o homem e a serpente fazem parte de um todo: o Absoluto. Assim, com meditação, o homem e a serpente deixam de ser dois seres para se tornarem um. Dominar a serpente era, dessa forma, tão fácil como dominar um dedo ou um braço. Para além do encantamento, o brâmane era entendido na arte de lidar com as mordeduras e os respectivos venenos. Adquirira uma estranha imunidade e afirmava que o veneno é apenas uma parte da vida, da mesma forma que também a morte é uma parte da vida. Há vida no veneno, só é preciso saber procurar. O velho habitava esta terra material mas comungava com outros mundos invisíveis que compõem o Absoluto. Era, apesar de humilde, muito instruído e um excelente professor. Não demorou muito, por isso, até que passasse para o homem a sabedoria e os conhecimentos que permitiam encantar serpentes e enganar a morte na forma dos seus mais variados venenos. Assim, o ganha-pão do homem, agora mais velho, consistia em sentar-se na praça central e exibir o seu talento aos mais curiosos a troca de algumas moedas. Enfeitiçava serpentes e fazia-as dançar, numa maneira de ganhar a vida como outra qualquer. De quando em vez, porém, quando o dinheiro para comer escasseava e o público se mostrava mais generoso, deixava-se ser mordido por elas, e foi ganhando fama como o homem que conseguia enganar a morte.
 
Um dia, a história do homem que resistia aos venenos, chegou aos ouvidos do Vizir. Como este se encontrava em vias de organizar uma festa no palácio real, decidiu convoca-lo para servir de principal atracção. Havia, no seu palácio, um grande jardim zoológico onde habitavam alguns dos mais exóticos animais dos quatro cantos do mundo. Pediu, portanto, que fosse escolhido e preparado o espécime mais venenoso, de modo a que a sua toxicidade fosse experimentada no homem. A história soava-lhe a boato mas seria, com certeza, um número circense diferente do habitual e iria muito certamente agradar aos seus ilustres convidados estrangeiros. O humilde homem não podia negar um pedido tão honroso do Vizir e prontificou-se a servi-lo de acordo com a sua inquestionável vontade.
 
*** Passaram poucos dias, até que esse dia chegou por fim. ***
 
A festa estava animada mas havia uma certa ansiedade dos presentes para assistirem à grande prova do veneno. Gradualmente foi-se formando a respeito um enorme burburinho entre a multidão. Uns diziam que era impossível resistir aos venenos, enquanto outros asseguravam que não, que era possível em alguns casos. Outros, ainda, diziam que até podia ser possível resistir a alguns venenos mas não ao veneno do espécime peçonhento que aguardava. Então, quando o burburinho se transformara em gritaria, uma voz seca de trovão anunciou a chegada do Vizir que, por sua vez, disse de imediato:
- Hoje vai saber-se, se o homem que se encontra de pé à minha frente, é um homem de bem, abençoado pela sabedoria dos Brâmanes, ou se, pelo contrário, é um impostor que quer enganar o povo para proveito próprio. Este homem vai ser testado de forma que não restem dúvidas sobre o que apregoa. Se for realmente imune ao veneno farei dele um sábio da minha corte e ouvirei os seus ensinamentos. Porém, se nos estiver a enganar e não sobreviver, a sua bela esposa, que se encontra a seu lado, será executada para que este dia sirva como exemplo a todos os desonestos. Que comece a prova!
 
- A Mamba negra é a serpente mais venenosa do continente Africano. Caso não seja tratada de forma célere, a vítima da sua mordedura fica paralisada e muito dificilmente escapa a uma morte agonizante. Se este homem se mostrar imune ao veneno é, sem qualquer margem de dúvida, um homem santo. – Assim disse, com uma voz grave, o experiente tratador dos animais, responsável pela escolha de tão exótico espécime.
 
Foi pedido ao homem que estende-se o braço direito e afastasse o manto que lhe ocultava a pele. A serpente, agressiva por natureza, foi aproximada e desferiu duas rápidas mordeduras, injectando grande quantidade de veneno. Nunca o homem esteve sujeito a tal veneno e em tão grandes quantidades. De repente os seus joelhos dobraram-se tendo, de imediato, prostrado o olhar no chão. A esposa abraçou-o e assim ficaram, agachados, enquanto todos no salão tentavam espreitar mais alto para saciarem a curiosidade mórbida inerente ao ser humano.
 
Faz parte de um todo: a serpente e o homem, o veneno e o sangue. A morte e a vida. O Universo diz-nos que para tudo é preciso um oposto, afim de haver um equilíbrio. Como pode o homem dar real valor à vida se não tiver consciência da sua morte. O que ao homem comum parece caos, ao sábio parece lógico. Porque, continuamente e de forma renovada, os equilíbrios desequilibram-se e os desequilíbrios equilibram-se, numa contribuição para o equilíbrio maior. O sábio não olha os acontecimentos como elementos isolados mas, antes, como parte integrante de um grande processo. Mantém a equanimidade porque, para além do relativo, estuda as propriedades do Absoluto. É um geómetra que sabe ler, interpretar e compreender os sinais do Universo pois eles são, por si só, uma linguagem própria. O verdadeiro sábio é humilde e com humildade se levanta e diz ao Vizir:
- Perdoe, Vossa Majestade, a minha ausência momentânea. Precisei de meditar porque, com tanta agitação, desuni-me momentaneamente do Absoluto. Mas agora estou bem e às ordens de Vossa Eminência.
 
O Vizir, convencido e convertido, decretou que, doravante, o homem deixaria de ser pobre. Por mérito próprio conquistara um lugar de sábio na sua corte. Iniciaria as suas novas funções logo no dia seguinte. E a festa continuou, noite dentro, com grande animação até de madrugada.
 
***
 
No dia seguinte o homem não apareceu. Estranhando a ausência, do agora sábio, o Vizir enviou dois mensageiros ao casebre para se inteirarem do porquê da respectiva demora. Apesar de ser experiente e vivido, não conseguia disfarçar algum nervosismo, enquanto vários pensamentos o desassossegavam. Algumas horas depois chegaram os servos, regressando cabisbaixos.
- Então, o que se passa? – Perguntou, inquieto.
- Vossa Majestade: as novas que trazemos estão, infelizmente, carregadas de trevas… O homem e a respectiva esposa morreram envenenados. A esposa encontrava-se deitada sobre o leito, enquanto o homem jazia suspenso numa forca improvisada.
- Não estás a ser coerente! – Afirmou o Vizir com surpresa e ferocidade – Como podes afirmar que o homem morreu envenenado e, logo a seguir, dizeres que estava suspenso numa forca? E como poderia o homem morrer envenenado se, ainda ontem, se mostrou capaz de resistir a um dos venenos mais fortes conhecidos pela humanidade?!
- Bem, Vossa Majestade, o pobre homem deixou uma carta…
 
A carta tinha inscrita a seguinte mensagem que o servo passou a ler em voz alta:
 
          Parece, Vossa Majestade, que não vai ser possível apresentar-me no palácio para ter a honra de lhe transmitir os ensinamentos que, um dia, outros sábios me passaram a mim. Porém, quando terminar de ler esta mensagem, espero que possa apreender o maior ensinamento de todos. O ensinamento que supera todos os outros.
Ontem, após terminada a festa em que muito me honrou participar, eu e a minha esposa pusemo-nos a caminho de casa. A meio da caminhada uma serpente, esgueirando-se de surpresa e de forma rápida por entre a seara, mordeu-lhe com gravidade um calcanhar. O resultado foi uma morte em agonia nos meus braços, não podendo eu fazer nada para o evitar. De todos os venenos do mundo, este era o único para o qual não estava preparado, pois não fora directamente dirigido a mim. Fui para casa, carregando-a nos braços e, quando lá cheguei, deitei-a sobre a cama. Olhei para ela ali, inanimada, enquanto dormia um sono perpétuo, e tamanha angústia fez com que deixasse de me sentir parte de um todo. Senti-me, tão-somente, parte de nada. Bem ou mal decidi, nesse momento, que queria seguir os passos do amor da minha vida e partir pelo mesmo caminho que ela havia tomado. Decidi que tinha de a procurar e, portanto, lançar-me à maior expedição da vida… Se a vou encontrar? Quem sabe?... Mas a pergunta a fazer não será tanto essa. Essa é uma pergunta que unicamente a mim diz respeito. A pergunta relevante será, Vossa Majestade: qual o maior ensinamento que lhe posso deixar? …
 
Aqui, o servo deteve-se e, comovido, preferiu entregar o escrito ao Vizir. Este segurou a carta e leu o ensinamento em silêncio, enquanto uma lágrima lhe percorria os contornos do rosto.
 
Era um homem que se unia às serpentes para não morrer, mas era o facto de estar unido ao amor da sua vida que o fazia viver. Era um homem sem nome porque, talvez no fundo, fosse um homem comum. Era um homem que habitou um passado longínquo mas, ainda hoje, o seu derradeiro ensinamento parece verdadeiro. Era, também, um homem de terras distantes mas com uma história que toca de perto os nossos corações. Era um homem que, de facto, morreu envenenado. O que estava escrito, no final da carta, foi transcrito para o final deste conto:
 
O maior veneno para o homem é a falta de amor”.

sinto-me: Envenenado
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publicado por ejail às 15:47
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