Terça-feira, 19 de Junho de 2007
Fotografia
Quis saber o que é uma fotografia,
se é um poema de estranha caligrafia.
Quis descobrir o que é puxado para o pequeno compartimento,
se uma história estática ou com movimento.
 
Ao que parece a mente pode esquecer,
as pequenas memórias tendem a desaparecer.
Mas há certas coisas que temos de ter,
as recordações que as lágrimas fazem verter.
 
Coisas como aquele velho retrato,
ou até aquela paisagem de céu abstracto.
As ondas indomáveis e desgrenhadas do mar,
aquela pessoa que precisamos de amar.
 
Procurei aprender um pouco da arte,
capturar tudo deste mundo até Marte.
Mas a técnica tem que ser precisa e objectiva,
ainda que o primeiro passo seja libertar a vista cativa.
 
Procurei a euforia e o tormento,
usei a determinação para radiografar o vento.
Encontrei, no nada e no tudo, a vida e a morte,
descobri-as na calma, na pressa, no azar e na sorte.
 
Por entre prédios altos e galhos soltos,
na civilização cosmopolita e na natureza de preceitos revoltos.
Carregado com a máquina, as lentes e o estojo,
dias a eito, perdido na cidade e imerso no tojo.
 
Tive que abdicar de mim e entregar o corpo e a alma,
estender uma mão e concentrar-me na palma.
Reaprender de novo a importância da respiração,
a controlar as ânsias e os batimentos irregulares do coração.
 
Tive que descobrir janelas invisíveis,
achar mundos em recantos totalmente imprevisíveis.
Mas aquilo que descobri e que estava encoberto,
aquilo que estava oculto, na opacidade do vácuo, é agora espaço aberto:
 
Desertos escaldantes,
oásis refrescantes.
A neve alva,
a suavidade do violeta de uma malva.
Um dado viciado numa aresta,
dinheiro sujo num fogo que cresta.
A mentira e a verdade,
a mocidade e o desfigurar da idade.
O restaurar de desejos que se apagaram,
o sarar de olhos que cegaram.
Conversas de ideólogos e sonhadores,
órbitas de astros e discos voadores.
Aves em voo picado e o arrastar de caracóis,
galáxias longínquas e outros sóis.
Os horizontes e os montes,
as margens e as pontes.
As videiras e os esteios,
a depressão e os homens feios.
Ódio e amor,
segurança e tremor.
A timidez e a sedução sem qualquer pudor,
a envergadura das asas do condor.
As ruas e os passeios,
as sereias e os seios.
As ondas dos cabelos,
as poses sedutoras das modelos.
As forças da natureza,
as fraquezas da beleza.
E até a premonição!
Tudo à espera de se transformar numa canção…
 
São tantos mistérios que se podem revelar,
tantos sonhos prontos para alar.
Os gestos soltos que se podem segurar,
as imagens que se podem respirar.
 
Tantos factos que se podem capturar,
tanta magia e tantos sentimentos que se querem adivinhar.
O íntimo e as palavras que se podem transmitir,
um álbum de saudade que grita e suplica p’ra partir.
 
É certo que nunca cheguei a profissional,
fiquei-me por anódina, um amador banal.
Mas como em tudo acho que alguma coisa aprendi
e talvez não tenha sido apenas tempo que perdi.
 
Fotografar é, talvez, roubar ao instante um momento,
é isolar a essência desse precioso fragmento.
É parar o tempo e todas as dimensões intangíveis,
é condensar na imortalidade todas as emoções perecíveis.
 
Penso que também serve para dissipar as trevas e a dor;
pelo menos, quando liberto a luz desse flash redentor.
Serve para me sentir uma espécie de escritor,
para deslizar sobre as formas e as cores como o pincel de um pintor.
 
Mas agora,
agora, neste tempo sem marca de hora.
Agora, nesta introspecção de velhice,
penso para mim se não terá sido apenas uma estéril criancice.
 
Agora que em mim as cores se estão a esvair,
agora que as convicções estão todas a cair.
Agora que as dúvidas me estão a abafar,
o que terá sido que eu consegui, de facto, fotografar?
 
Atentamente,
ejail.


sinto-me: Fotógrafo
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publicado por ejail às 00:43
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