Sábado, 12 de Maio de 2007
Poesia Falida
Isto é poesia falida... tal como eu...
 
Ave Mutante
 
Num quarto fosco de uma pensão,
esmagado pela claustrofobia e pela tensão.
Observo da janela as fachadas
sob um céu de estanho e nuvens queimadas.
 
Um homem senta-se numa escada
e começa a escrever numa folha apagada.
Entre goles de chã de pericão,
medita nas contingências de um dia de cão.
 
Sinto-lhe um sabor a doente acamado
e um azedume de já não ser procurado.
Parece enleado em lençóis de naftalina,
quebrado e carpido no seio da neblina.
 
Mais longe e a brincar está um puto mimalho,
agarrado ao velho cartaz de um talho.
Um bife e vísceras em promoção,
servindo o pó, esquecidos o propósito e a função.
 
Adultos apressados levantam luxo no Multibanco,
mesmo ao lado da fome e do multi-manco.
Padres e homens de fé que ignoram as guerras
e movem os olhos para trás das serras.
 
Dizem que a fé move montanhas,
que é preciso ser puro até às entranhas…
Esses padres e pastores que vivem no seio do comodismo,
que conduzem os imensos rebanhos ao abismo.
 
Ídolos defuntos, ao fundo, no altar da igreja
e a serpente sedutora que à saída rasteja.
Beatas e viúvas ao lado de prostitutas,
de costas voltadas, as velhacas e as astutas.
 
Vejo velhas insípidas soterradas em cosméticos,
reduzidas ao absurdo por cálculos estequiométricos.
Nados-mortos nascidos de parto natural,         
desfigurados por doses e overdoses de epidural.
 
Homens de negócio cinzentos e engravatados,
cheios de orgulho e tão abastados.
Seres maquiavélicos por baixo do fato aprumado,
ratos mesquinhos de um esgoto inquinado.
 
E os homens de barba moral e de princípios,
que apedrejam os coitados dos ímpios.
Os falsos profetas de falsas esperanças,
os assassinos e os caçadores de crianças.
 
Esses espectros especializados na vaidade,
que morrem à sombra da saudade.
Esses demónios que não passam de larvas de gente,
essa gente sob um céu adstringente.
 
Recordo-me do meu avô no pombal,
daquela minha longínqua infância tribal.
Lembro-me das travessuras e da inocência antiga,
de como me movia e sorria antes da grande fadiga.
 
Depois veio a agonia da puberdade,
o preconceito mentiroso contra a verdade.
Veio tudo aquilo que é ruim de saber,
que há venenos que não se deve beber.
 
Lembro-me, também, de amar e verter Cloreto de Sódio
e não me esqueço de ser vomitado com Hidróxido de ódio.
Não esqueço o apodrecer nos intestinos do destino,
a pestilência assassina que não tinha em menino.
 
O tempo é o das rugas e dos maus-tratos,
é o que me amputou da paisagem e dos retratos.
Esse vento que me toca e se esfuma,
esse feitiço que me colhe na bruma.
 
Enterrado de olhos no céu: Pai, Filho e Espírito Santo,
por que não cessa nunca o meu pranto?
Por que é que nem todo o ensinamento e doutrina,
chegou para acender a luz de uma única lamparina?
(imagem retirada da internet)
O aperto da asma,
o esvair num aneurisma.
É demasiado tarde,
esta dor corrói e arde.
A guerra dos mundos,
uma batalha sem escudos.
Uma explosão nuclear,
a chama que me vai apagar.
A radioactividade,
a aceleração da idade.
A chegada dos anjos,
a mutação dos beijos.
O fim do pecado,
o enterrar do machado.
O fim das minas,
a era perfeita das máquinas.
O fim das sevícias,
o fim das carícias.
A eterna adoração,
a eterna maldição.
Uma nova monção,
uma nova canção.
O início do temor,
o início e o fim do amor.
A partida de Sancho Pança,
a chegada da temida livrança.
Chegou a hora da matança.
A morte de D. Quixote,
os ossos num caixote.
Cavaleiro andante,
cavaleiro amante.
Cavalheiro mutante.
Tudo, tudo... tudo... um baú de incertezas,
um grande mealheiro de tristezas…
 
Esta poluição,
esta tão grande falta de convicção.
Estes campos de joio incendiados,
estes espíritos ceifados…
 
Um dia pensei que a vida era como um beijo,
um suspiro inspirado por poetas no calor do desejo.
Nunca imaginei o inferno com que fico,
onde os pássaros jamais terão bico.
 
O crepúsculo deixa-se abater pela escuridão,
é a fuligem que vem com o Armagedão.
Porém vejo ainda um pica-pau às cabeçadas,
nos troncos soltos das arvores despedaçadas.
 
Está decidido: não vou pensar mais nela,
cerro os punhos e fecho a janela!
Lavados os olhos, vendo bem e apesar de tudo,
não ser amado não é o fim do mundo…
 
Atentamente,
ejail ( sob muitas nuvens cinzentas ).

sinto-me: Deprimido
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publicado por ejail às 19:48
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