Terça-feira, 17 de Julho de 2007
Bom Demais Para Ser Verdade
Coimbra: cidade de despedidas encantadas. Na sua complexa rede de estradas e estreitas ruelas, circulam um pequeno sem-número de autocarros. Movem-se para os lados, para trás e para diante, sem nunca se afastarem muito de um qualquer ponto de gravidade imaginário. São uma espécie de pêndulos urbanos. São como bestas tecnológicas que, aprisionadas, ora engolem os seres humanos, ora os cospem. Tudo é feito com uma extrema rapidez e frieza mecânicas e, as poucas excepções que ocorrem, são quando as presas, quase sempre amorfas e resignadas, discutem entre si para ver quem vai primeiro.
 
Um desses autocarros tem uma particularidade. Aparentemente é um veículo de transporte de passageiros normal: não muito velho, não muito novo. Tem bancos que foram construídos na tentativa de encontrar um compromisso entre o conforto, a usabilidade e a economia. Guincha e oscila, como muitos outros, nas curvas mais apertadas e não trepida menos quando a estrada é de paralelo. Transporta renegados de meia-idade, de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Carrega os velhos, com passes sociais, a quem a sociedade já há muito retirou a esperança e leva os novos para a escola que aguarda para os formatar. Os jovens são inocentes e deixam-se, facilmente, iludir pela esperança e modas passageiras. O autocarro transporta pobres: homens e mulheres, crianças e pedófilos, inocentes, ladrões e assassinos. Ele não escolhe o que lhe dão a comer, apenas come o que lhe é servido. Nele são transportados seres à deriva numa sociedade de castas de falsidade. É um autocarro igual a tantos outros, apenas tem uma singular particularidade que só a mim diz respeito.
Um destes dias, uma qualquer empresa sediada no Porto, vai comprar este autocarro. Alguém o há-de levar para a oficina e dar-lhe um banho de tinta. Alguém o há-de pintar, numa estufa própria, com as cores da nova empresa. Depois vai ser restaurado: o chão, comido pelo arrastar dos passos pesados dos passageiros, condenados com grilhões a vidas efémeras e repetitivas; os assentos encardidos de transpiração mundana; os graffitis com mensagens de alguém que amava e agora, se calhar, até já odeia; o sebo das mãos ainda agarradas aos varões; os fantasmas de Coimbra. Tudo tem de ser limpo e renovado.
 
Um motorista vai ser contratado para conduzir o autocarro. Vai ser colocado um anúncio no jornal e muitos desempregados e desgraçados vão concorrer. O salário não é grande coisa mas, para muitos, vai ser a sua última oportunidade. À medida que várias fazes da selecção vão sendo progressivamente queimadas, o número de candidatos vai diminuindo até que, por fim, um deles será o escolhido. Neste caso em particular não vai haver cunha. O motorista que será escolhido provará ser o melhor. A empresa irá reunir referências junto de antigos empregadores e, todos eles, abonarão a favor do candidato. Vai, posteriormente, iniciar uma acção de formação profissional teórica e prática. Um motorista da casa, mais experiente, vai, depois disso, mostrar-lhe o percurso da carreira que lhe será designada e explicar-lhe as manhas do trânsito local. Tudo tem de ser perfeito. Chega o dia e o autocarro e o motorista estão prontos para saírem à rua.
 
Durante cerca de seis meses e quinze dias tudo parecerá normal. Mas não no dia a seguir. Nesse dia em particular, esse motorista em particular, com esse autocarro em particular, vai sair da garagem e, como de costume, vai encaminhar-se para o respectivo giro. Porém, uma velha furgoneta, em infracção de velocidade excessiva, vai efectuar uma manobra arriscada e colidir com o retrovisor esquerdo do autocarro. A colisão não será suficientemente forte para partir o espelho mas vai chegar para desalinhar o mecanismo de suporte. Na confusão que se seguirá, o infractor vai fugir, não dando tempo ao assustado motorista de registar a matrícula. Este, por sua vez, pegará no telemóvel e ligará para os escritórios da empresa, para o sector das escalas, contando o sucedido. Vão chegar à conclusão que não há nenhum autocarro para efectuar a substituição e, como o retrovisor apenas está ligeiramente desalinhado, o motorista pode seguir viagem. No final do dia, quando o autocarro recolher, os serviços da oficina farão a reparação. O motorista retomará a marcha.
 
Algumas horas depois, o autocarro irá parar, como de costume, numa paragem. As pessoas, como de costume, vão sair e vão entrar, insensíveis à rotina. Sairão e entrarão, como habitualmente, todos os dias úteis - ou todos os dias inúteis. Sairão e entrarão como se, de alguma forma, a humanidade quisesse foder aquele autocarro. O motorista, não vendo qualquer veículo pelo retrovisor desalinhado, dará sinal de mudança de direcção para a esquerda e retomará a marcha. De traz virá um condutor mais apressado e distraído, que não se vai aperceber e, deixando cair o telemóvel, apenas conseguirá pressionar a buzina sem se conseguir desviar e sem conseguir abrandar em tempo útil. Nesse instante, o motorista do autocarro, ouvindo a buzina e apercebendo-se do perigo de colisão iminente, guinará o autocarro, num reflexo irreflectido, para a direita, para cima de uma passadeira. Uma pessoa vai ser colhida…
 
Vejo-me deitado sobre um zebrado. O céu parece cinzento mas, antes da colisão, parecia-me azul. Talvez, o impacto contundente ou a sensação de uma severa fatalidade, tenham afectado os meus olhos e me tenham levado as cores. Apercebo-me que não é só o céu que não tem cores. As pessoas à volta também estão descoloridas. Sinto um arrepio constante e, estranhamente, começo a desaprender a respiração e a sentir uma repentina falta de forças. Sinto a cabeça descair para o lado, sem que tenha poder para a contrariar, e começo a ver imagens, pouco nítidas e antigas, a substituírem as actuais. Sinto os olhos fecharem-se e, apesar disso, cada vez mais, vejo mais imagens. Parecem ser coisas do passado, imagens que já nem me lembrava de ter guardado, imagens de coisas de que não consigo ter a certeza se realmente aconteceram. Tudo parece ter atingido um estranho silêncio sepulcral. É quase espiritual. Mas, nessa falta de sons, uma voz vai-se fazendo ouvir. Uma voz surda que se confunde com o vácuo. Uma voz que, gradualmente, vai ganhando protagonismo face à estática do silencio. Uma voz que soa cada vez mais alto e que, cada vez mais, parece uma gargalhada e um grito irado. Uma voz que diz: “Seres feliz… Era bom demais para ser verdade!”
 
 
Tenho que falar da Ana e não consigo. Porque é uma pessoa única e especial. Alguém que me ensina e ajuda a derrotar o medo de viver. Alguém que surgiu na minha vida de uma forma tão profunda, que parece bom demais para ser verdade. É alguém que me faz olhar para os dois lados, quando atravesso uma estrada. Alguém que não quero perder por que me faz ter vontade de viver, que me faz ter vontade de amar. Alguém que me faz ter um peculiar cuidado com os autocarros. ;-) É alguém que me faz acordar com um sorriso nos lábios, ao invés de uma lágrima no rosto. É alguém que veio trazer ânimo e sentido à minha vida. Alguém que aceita e compreende os meus medos, e me conforta. Alguém que deixa que eu faça o mesmo por ela. É alguém em quem eu começo a confiar e alguém que vai confiando cada vez mais em mim. Uma pessoa bonita que me desperta o desejo e uma pessoa bonita que me desperta a espiritualidade. Não encontro palavras para falar desta mulher. Teriam de ser palavras ainda não inventadas. Palavras virgens, criadas unicamente para serem usadas nesta magnifica pessoa. Estou de beicinho por ela. Quem diria? Logo eu…
 
Ana, eu amo-te!
 
 
Atentamente,
José.

sinto-me: A Despertar

publicado por ejail às 12:25
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7 comentários:
De rita a 17 de Julho de 2007 às 22:29
Hummm, apaixonado?Que bom!!!Fico feliz por ti, acredita que sim...
Espero que os dois se completem!
Fiquei tão feliz com o resultado final deste teu post...
Obrigado Ana, por existires na vida do José.
Um beijinho enorme cheio de felicidade e Harmonia


De ejail a 26 de Julho de 2007 às 16:22
Olá Rita.
Antes de mais, peço desculpa por andar distante dos blogs. Não esqueci, no entanto, os amigos e tu és, seguramente, uma pessoa que não esqueço.

Tenho andado mais ocupado do que o habitual, mas devo confessar que é bom andar ocupado desta maneira. A Ana é uma pessoa extraordinária e só tenho que estar grato por esta dádiva.

Obrigado, Rita, pelo teu apoio e amizade. Eu vou acompanhando o teu blog e vou torcendo para que tudo corra bem para ti.

Um beijinho enorme, cheio de felicidade e harmonia :-)


De "I" a 18 de Julho de 2007 às 16:46
Não imaginas como fico feliz por ti! Pode parecer cliché, mas não sei que te hei-de dizer mais sincero que isto.
A tua felicidade atravessou o tempo, o espaço, a rede cibernética e veio espelhar-se um pouco também no meu coração :)

Paz *


De ejail a 26 de Julho de 2007 às 16:32
Olá I.

Peço, antes de mais qualquer coisa, que me desculpes pela demora na resposta. Tenho encontrado menos tempo para passar pelos blogs mas pelas melhores razões. Há já alguns anos que não me sentia tão bem. A Ana tem sido uma pessoa impecável...

Agradeço o teu simpático comentário e espero que a felicidade faça ninho no teu coração. Espero, muito, que tudo corra bem para ti e sabes que és sempre bem-vinda a este meu humilde espaço.

Um abraço e, paz e alegria...


De Question Mark a 21 de Julho de 2007 às 18:56
Olá !
Tu és um habitante da espiritualidade e da reflexão. E como pessoa intensa e espantosa que és, pensas, e muito. E talvez por seres assim um ser tão maravilhoso e mágico ficas melancólico e descontente com a vida. Mas , como pessoa MAGNIFICA , MARAVILHOSA, ESPECIAL, MÁGICA (... e muitas outras coisas boas ) que és, estás a sorrir! E mereces muito... posso não te conhecer, mas sinto-me ligada ao que escreves e não deixo de sentir um enorme carinho por ti , não deixo de sorrir neste momento porque sei que acordas com um sorriso!
E quanto à Ana, se a conhecesse dir-lhe-ia que tem um tesouro perto dela. E entendo-te muito bem quanto ao facto de não existirem palavras para falar dessa pessoa. E como tu uma vez me disseste: " a linguagem dos homens é diferente da linguagem do coração".
Sorri muito, valoriza-te (não porque é bom auto-valorizarmo-nos , mas porque tens de facto muito valor), sê feliz!

ps: e sim, senti a falta das tuas palavras naqueles dias sem posts ...

Um grande beijo


De ejail a 26 de Julho de 2007 às 16:47
Olá Secretamente tua.

Estou comovido com as tuas palavras. Não sei o que dizer perante tanto calor, perante tanta estima, perante tanto carinho. Estou sem palavras.

Peço-te desculpa pela demora na resposta mas os dias têm passado de uma forma quase surrealista. Tenho enfrentado tantas novas questões, tenho vindo a descobrir tantos novos horizontes, tantos novos sentidos e tantos novos estados de espírito. O tempo tem passado a correr e tem sido tão bom...

Por vezes penso que não merecia tanto. Eu não sou uma pessoa fácil mas a Ana tem sido absolutamente perfeita. É bonita, sensual, sensível, inteligente, meiga... Não há palavras...

Não esperava muito desta vida. Já tinha, praticamente, perdido a esperança de deixar de ser infeliz. E, neste momento, sinto-me bem. Quando menos esperava, aconteceu algo de maravilhoso na minha vida. Espero que, também tu, encontres este bem-estar que sinto. Não desistas de perseguir os teus sonhos porque eles acordam-nos, não quando queremos, mas quando menos esperamos.

Muitas felicidades e um grande abraço, são os votos deste teu... amigo.


De Rêve a 17 de Fevereiro de 2009 às 15:46
Olá José
Após ler o que te vai na alma, é simplesmente impossível ficar indiferente. Sinto que és uma pessoa que se entrega totalmente...de corpo e alma. Todavia, apercebi-me que és uma pessoa muito triste e que já passate por muito. Apenas quero-te dizer que a minha vida também não foi facil e ainda não o é, mas ñão podemos deixar a escuriodão aproximar-se, muito pelo contrário, devemos deixar o sol brilhar nas nossas vidas. Em suma, fiquei feliz por saber que estás feliz e não queria deixar de congratular-te.


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