Sexta-feira, 31 de Agosto de 2012
democrAZIA

Apetece-me cometer uma ilegalidade, mas não sei qual.

 

Poderia escolher tantas, mas sempre fui um pouco indeciso. Talvez um crime imensamente perverso e intelectual, mas hoje estou elanguescente. Fazer um Voodoo: espetar umas agulhas num Action Man e depilar uma galinha preta, mas isso é mais liberdade religiosa do que crime. Assaltar um banco ou, um pouco menos ambicioso, uma senhora idosa. Sim, a senhora idosa! A, sempre simpática, fácil e “Abutre-Ready”, senhora idosa! Mas acho que não... Ia ter pena do humanoide e o apuro não seria substancial. Um crime gramatical? Sou demasiado macho para considerar, o golpe em questão, como um crime! Talvez burlar? Sim, burlar! Uma palavra tão pequena, suave e acolhedora. Vamos na onda do “bur” e quando dámos por nós já estamos a chegar ao doce “lar”. É isso! Burlar! Cá vai a burla:

 

Portugueses: apertem os cintos porque há esperança!

 


sinto-me: pt-PT
música: pimba!

publicado por ejail às 01:57
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Domingo, 26 de Agosto de 2012
Cocó

Em jeito de balanço, já escrevi muitas merdas.

Acho que o blog merecia uma edição especial, publicada em papel higiénico...

 


sinto-me:
música: sons da natureza...
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publicado por ejail às 02:19
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Segunda-feira, 25 de Junho de 2012
Falta ( não é futebol ).

Tantos blogs que morreram. Ou definham num modo de morrer interminável. Pedaços de sentimentos, congelados na aridez de um deserto de tempo perdido. Tanto de tanta gente que um servidor, teimosa e automáticamente, guarda e faz permanecer através desta ridícula, ilusória e brevíssima eternidade. Criações abandonadas pelos criadores.

 

Estou a ver blogs antigos e soa-me como se de navios fantasma se tratasse. Vagueiam num mar infinito, titânico. Navegam o esquecimento. Sinto o gelo da solidão ao reparar nas últimas datas, detidas e atoladas num passado longínquo, fúngico e bastante pastoso. Sinto a falta do calor humano, das cores dos sentimentos recentes, do escorregar das lágrimas e do bálsamo dos sorrisos. Sinto falta dos desabafos verdadeiros e dos sonhos inocentes, das realidades enganadas. Sinto a ausência dos olhos, que banhavam as letras com a suave esponja da atenção. Sinto a falta dos comentários que seduziam os textos com novas e refrescantes perspectivas.

 

Sinto a falta de uma parte de mim que viaja com todos aqueles que conheci.

 

Não é que queira voltar ao passado mas, hoje...

Sinto a falta do tudo, perante este nada.


sinto-me: ?
música: ...

publicado por ejail às 02:18
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Terça-feira, 8 de Maio de 2012
Poema Invisível

.


sinto-me:

publicado por ejail às 01:53
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Quarta-feira, 11 de Abril de 2012
Sombra Lunar

Parece-me, de noite, ver alguém na Lua,

solitário e prisioneiro do seu lado oculto.

Parece navegar as cinzas numa falua

e arrastar-se no sedimento como um vulto.

 

Existirão seres extra-terrestres,

ou será apenas a névoa do meu olhar cansado?

Talvez só chamando cientistas e mestres,

para vencer as crenças e os dogmas do passado.

 

O mais certo é eu estar aluado,

desgostoso pela gravidade do espaço.

Triste e despedaçado por não ser amado

e ansioso por me deitar num regaço.

 

Mas não!

Não estou louco nem estafado,

muito embora haja quem diz o contrário.

É que não é fácil ludibriar o fado:

lá em cima só eu e este pobre diário.


sinto-me: extraterreno
música: The Final Countdown

publicado por ejail às 01:34
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Segunda-feira, 30 de Maio de 2011
A Procura de Um Sentido

 

(imagem retirada da internet)

 

 

Um sentido para cinco.
Cinco ou mais, talvez...
Vistas condensadas num olhar profundo,
do extremo celestial à solidão palpável do centro do mundo.
Um pensamento que condenso e trinco,
em silêncio, uma e outra vez.
Decantada a essência a que, em tantos dias, fui alérgico:
de que serve o tudo - ou o nada -, num espírito pentaplégico.

 

ejail (2011.05.30)


sinto-me: em sentido
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Domingo, 9 de Janeiro de 2011
Bom Ano!

 

Após tanto tempo sem escrever, seria de supor que tenho algo relativamente interessante para dizer. Não poderia, esta ideia, estar mais desviada da verdade. Neste canto, dizer algo de jeito, é pura ficção.

 

Este blog está em total decadência. Vazio de conteúdos, vazio de ideias, sem rumo, desalmado. Com uma linha estratégica de marketing, superiormente elaborada, no sentido da desgraça e da auto e alta (ou baixa) destruição. Este conjunto desconexo de textos está, a muito e muito, a caminho da aniquilação: o Apocalipse da Quinta Dimensão. Mas, para que conste, não tenho, como é hábito, qualquer responsabilidade no caso. A culpa é das famosas e famigeradas redes sociais: do Facebook e do Twitter, que esmagam as minhas audiências. – pausa para rancor (mínimo de 20 seg). – Ainda dei alguma luta com as minhas (vossas) 6381 visitas mas, por muita qualidade que elas tenham, se as convertesse em assinaturas não chegavam para concorrer à presidência da república. Como se não bastasse, estou fora de moda: ando pouco na rede e nada social.

 

Não escrever durante muito tempo não me esclarece a mente e provoca-me dificuldades ao nível das, sempre difíceis, decisões de colocação de virgulas. Escrever pouco é, também, em incerta medida, como deixar de lavar os dentes. Se, no caso da badalhoquice, ganhamos um sem número de amigas que dão pelo nome de bactérias, no caso da ausência de escrita, amealhamos os erros ortográficos. Se, no primeiro caso, ficamos com os dentes numa miséria, no segundo, os textos tornam-se miseráveis. Noto a ferrugem associada a cada letra, a chiadeira que produz cada palavra, as dificuldades de engrenagem entre as frases e a bosta que resulta de tudo isso. No entanto, tudo isso me faz sentir vivo, porque me faz sentir mortal. Claro que a frase anterior é treta (não sinto nada disso mas achei que era uma frase com power de hip-hop).

 

2011 vai ser um ano difícil para todos menos alguns. Se o país está sem valor, talvez nos reste perscrutar dentro de nós os valores que nos fazem, realmente, bem. Dessa forma, por mais que percamos, ganhamos sempre qualquer coisa e, essa qualquer coisa, é mais do que tudo o resto.

 

Um bom ano para todos os pacientes (pela paciência) que passaram e passam por aqui!

 

 

ejail


sinto-me: a rodar em falso
música: um dueto pimba qualquer

publicado por ejail às 23:23
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Sábado, 21 de Agosto de 2010
O Martemático

Hoje, por causa de uma conversa, lembrei-me desta relíquia...

 

 

 

 

Do Ábaco ao computador actual, passando por Blaise Pascal;
tudo se alterou de forma radical.
O noivado da informática e da caneta,
num raciocínio do digital e da sebenta.

Matemático de Marte,
a exactidão é uma arte.
Poeta de terra,
os mundos estão em guerra.

Combinações que na tua vida não combinam,
correspondências que os números não ensinam.
Integrais que não integras jamais,
diferenciais que perdes entre suspiros e ais.

Arredondas um par de raízes quadradas,
com o encanto de um conto de fadas.
Traças diagonais e assimptotas verticais,
com a magia de poemas musicais.

Desenhas gráficos com tangentes e secantes,
em quadrículas cúmplices como amantes.
Sombreias o espaço interceptado com cinzentos,
como se procurasses esconder os tormentos.

Calculas este raio de mundo
com contas de carácter profundo.
Transformas um dado em parâmetro
e um mistério na função que devolve o diâmetro.

Reduzes o complexo à canónica,
como o resumo objectivo de uma crónica.
Dispões as mágoas numa matriz
e procuras a cura para cada cicatriz.

Amas sem limite, do menos ao mais infinito
e pelejas com o que para muitos não passa de mito.
Levantas o rosto na direcção do crepúsculo
e sabes, não passas de um ponto minúsculo.

Derivas argumentos com factos
por desvarios sinuosos e abstractos.
Trabalhas os números primos
mas o que anseias, mesmo, é por mimos.


As contas da vida,
essa tua ferida.
Extra-terrestre, astronauta,
encantador de flauta.
Essas pessoas reais,
que esqueceram os ideais.
Esses comportamentos complexos,
que te deturpam os reflexos.
Homem indivisível,
homem invisível.
Tu: pajem inteiro,
sem título de cavaleiro.
Tu: existência abandonada,
com a alma racionada.
Contador de mundos,
afogado em desgostos profundos.
Uma vontade que esfria,
num desaguar na noite sombria.
Ser perdido, sem pontas,
no céu, quantas estrelas tu contas?

Equacionas o interior
mas apenas te sentes inferior.
Um conjunto vazio numa depressão despegada,
hieróglifos do passado numa história apagada.

Martemático: poeta dos números;
quantificas corpos inúmeros.
Dissecas teorias que desmontas
mas nunca entenderás certas contas.

ejail


sinto-me: uma planta c/ raízes quadradas
música: Marte Ataca OST
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publicado por ejail às 01:35
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Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010
divãgações cronodesmedidas

(imagem retirada da internet)

 

O meu relógio procura imitar um círculo perfeito, andando, sempre, para a frente, mesmo quando já está, outra vez, a voltar para trás. Não regula bem. Percorre um segmento de tempo: a exacta quantidade de tempo correspondente ao intervalo entre o seu nascimento e consequente, inevitável, extinção. Corre, passo a passo, com fé, com confiança, com paciência, com determinação na busca da constância. Quase equânime.

 

Mas o tempo é como uma roda de hamster. É uma prisão e uma arma de destruição maciça que mata com o desgaste da erosão. Não mata o Todo mas mata tudo. Até os ideais, que nada mais são do que modas com outro nome. O tempo passa por tudo e tudo aquilo que é passado pelo tempo é isso mesmo: passado – passado: devorador insaciável de presentes, de presente.

O arco do tempo é, ao que a minha vista alcança, infinito. O seu movimento é perpétuo. A sua obra é perene e num estranho contra-senso inacabada, acabando, contudo, com tudo. Tudo abarca e só ele é eterno. Tudo o mais é seu interno. Não o tocamos. Ele toca-nos e como ele nos toca.

Tudo é barro nas mãos do tempo e aquilo que começa é barro daquilo que acabou e aquilo que acabou é barro daquilo que noutro tempo começou.

 

Mas é para a frente que se faz o caminho... um caminho de barro, embora.

O meu relógio indica... não importa! Que importa o que diz o relógio? Talvez deva começar a ler os tempos e não os relógios. É, talvez, tempo de vender (ou dar) um relógio.

O meu relógio procura imitar um círculo perfeito, mas está longe de ser uma obra perfeita. É apenas um objecto que persegue algo maior e intangível. É preciso mas até que ponto preciso da sua precisão. São horas de perguntar o tempo e não tempo de perguntar as horas!

 

E sinto o tempo passar através dos átomos que compõem a minha carne. Sinto o tempo trespassar os fotões e a matéria negra que compõem a minha alma.

Sinto-me um ponto, infinitamente pequeno, num plano infinitamente grande. Sinto-me uma partícula de tempo e matéria, um instante relativo numa eternidade absoluta.

Não sou daqueles que se sentem grandes num mundo pequeno. Não sou daqueles que se sentem pequenos num mundo grande. Não sou daqueles que se sentem.

Sou daqueles que não sabem o que sentem. Sou daqueles que não sabem as respostas. Sou daqueles que desconhecem as perguntas. Sou daqueles que o tempo vai enterrar no esquecimento.

Sou daqueles que precisa de acreditar em Deus para sentir a segurança que a queda contínua num abismo não pode proporcionar. Sou daqueles que, de forma hipócrita, fala para o céu em busca de uma luz quando o olhar escurece. Sou este execrável. Sou este homem que se consome. Este homem que o tempo há-de consumir.

 


sinto-me: horado
música: Time After Time
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Terça-feira, 17 de Novembro de 2009
Escutas

Que o ouçam, posso compreender.

 

 

Darem-se ao trabalho de o escutar...

 

...................................................................................................................

 

 Ainda há gente corajosa, abnegada e com espírito de missão.

 

 

 

 

LEGAL !

 

 


sinto-me: Sinto que ninguém me escuta
música: Fado (em loop)

publicado por ejail às 00:37
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Domingo, 8 de Novembro de 2009
A Vida é quem mais ordena

 

Hoje não escrevo. Bombardeio!
Não me fico pelas meias palavras nem pelo termo e meio.
Hoje não digo. Determino!
Abro fissuras no terreno e estremeço o divino!

Extravasa, rebenta!
Não pares! Nem por sete nem setenta.
Estoura, incendeia!
Vive a vida. Vive a ideia!

Trespassa o vazio e a plenitude,
com a tua velha juventude!
Desarma o sossego e arma o desassossego,
com a liberdade que te dá o desapego!

Sê educadamente selvagem e primitivo,
sê espectacularmente explosivo!
Sê carne e espírito,
sê, para ti mesmo e ao mesmo tempo, amado e proscrito!

Rasga o céu, excita electrões e funde átomos!
Sai da pasmaceira do povo que somos.
Torna-te no que és!
Está nas tuas mãos. Ouve! A oportunidade clama a teus pés.

Mergulha no fundo.
Perscruta bem esse mundo etéreo e imundo.
Limpa-te bem na sujidade e suja-te igualmente na limpeza.
Deseja, com a mesma ardência, a feiura e a beleza!

Inspira e expira nos píncaros!
Que as penas das tuas asas sejam múltiplos Ícaros.
Voa até que as entranhas do sol te devorem e os teus sentidos gritem!
Mas elas que provem e, se não gostarem, que te vomitem.

Faz amor com a tristeza e faz nascer alegria!
Faz jorrar, do teu íntimo, um pentecostes e um rio ébrio de sangria!
Conjuga sons e cria línguas estranhas, mas musicais.
Parte para longe. Abandona o teu querido cais...

Hoje dá-se o corte.
Ressuscita Morte!
Levanta-te e anda!
A Vida manda.

ejail (2009.11.07)


sinto-me: Idiota
música: Sole Mio
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Terça-feira, 21 de Julho de 2009
Mondego

 

Nas tuas margens, Mondego,
o silêncio dos milhafres escuto.
Ouço o toque do Absoluto no ego
e molho as mãos do meu peito enxuto.

 

 

Nas tuas águas, me rendo,
ao som dos teus acordes cristalinos.
Vais-me levando enquanto sou o que vou sendo,
enquanto o vento despenteia uma flora de violinos.

 

 

Nos teus braços, me embalas,
no regaço do teu leito me afagas.
As pedras, mergulhadoras, sibilam as tuas falas
e as tuas palavras saram as minhas chagas.

 

 

Mondego!

 

 

Viajante de lenta e serena quietude,
viagem pelas ruas do esquecimento: dos lugares e das horas.
Ermida onde o espaço e o tempo perdem a latitude
e eu me desprendo nas tuas correntes libertadoras.

 

 

ejail.

 


sinto-me: Natural
música: A Natureza que Escolha

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Quarta-feira, 10 de Junho de 2009
A Todos Que Passaram Pela Quinta Dimensão

 

As palavras não são sentimentos,
não os traduzem.
Porque, sempre que os tentam traduzir, algo se perde.
E, quando se fala de sentimentos, se algo se perde, tudo se perde.
As palavras não são e não traduzem sentimentos!
Podem, no entanto, toca-los.
Como um piano pode tocar uma melodia
e como uma melodia pode tocar a alma.
Como gotas de chuva podem tocar o rosto
e como um rosto molhado pode inquietar a alma.
Ou...
Como o vento persistente pode tocar um solo
e o solo pode tocar o indivíduo, afastando-o da multidão.
As palavras são construções do homem
e os sentimentos, desconstruções da humanidade.
As palavras são pontos do mapa
e os sentimentos pontuações do terreno.
Se algo é:
as palavras são o que são
e os sentimentos são o que são.
No que me diz respeito: sinto muito, por escrever.
Mas também escrevo por sentir muito.
Se calhar não me diz respeito.
Se calhar não sei, tão-pouco, quem sou.
Afinal, quem somos nós?
Não respondo com palavras.
Pergunto-me com sentimento!

 

ejail.


sinto-me: Agradecido
música: Talvez um solo dos Pink Floyd

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Sexta-feira, 10 de Abril de 2009
MAR

- Ouvi, uma vez, um poeta dizer que a beleza das coisas está nos olhos de quem as vê:

 

IMPRESSÃO DIGITAL 

Os meus olhos são uns olhos, 
e é com esses olhos uns 
que eu vejo no mundo escolhos, 
onde outros, com outros olhos, 
não vêem escolhos nenhuns. 

Quem diz escolhos, diz flores! 
De tudo o mesmo se diz! 
Onde uns vêem luto e dores, 
uns outros descobrem cores 
do mais formoso matiz. 

Pelas ruas e estradas 
onde passa tanta gente, 
uns vêem pedras pisadas, 
mas outros gnomos e fadas 
num halo resplandecente!! 

Inútil seguir vizinhos, 
querer ser depois ou ser antes. 
Cada um é seus caminhos! 
Onde Sancho vê moinhos, 
D.Quixote vê gigantes. 

Vê moinhos? São moinhos! 
Vê gigantes? São gigantes!

 

António Gedeão

 

- Há momentos, porém, nas nossas vidas, em que as vistas se cansam. São momentos em que, por muito esforço que façamos, apenas vemos escuridão.

  ... só nós sabemos como é:

 

LÁGRIMAS OCULTAS
 
Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
 
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
 
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
 
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
 
                             Florbela Espanca

 

 

- Por vezes até queremos falar com alguém mas não conseguimos e, por vezes, pensamos mesmo em desistir.

 

FALAR COM QUEM?

 

Ás vezes quero falar,

mas sofro de falta de ar.

Quero contar tudo o que sinto,

mas as palavras sabem a absinto.

 

Ás vezes gostava de ser ajudado,

estender a mão e ser resgatado.

Estou tão cansado de porfiar,

mas de maneira nenhuma consigo confiar.

 

Às vezes gostava de não desistir,

insistir para não deixar de existir.

Estou profundamente apagado

e não vejo as partes do meu eu fragmentado.

 

Muito desinteressante,

este conto incessante.

Muito pouco cativante,

esta vida inconstante.

Sem fio de história,

sem ponta de glória.

Absolutamente nada,

só a face molhada.

 

Ás vezes quero acordar,

mas não consigo parar de sonhar.

Quero viver tudo o que almejo,

mas ninguém me toca com um beijo.

 

Ás vezes,

apenas ás vezes…

 

De olhos fechados o que vejo?

O tédio e a solidão num bocejo.

De olhos abertos o que vejo?

A indiferença e o frio num cortejo.

É melhor sem olhos!

Não evito os escolhos,

mas sem olhos não vejo

e, se não vejo, não dou ouvidos ao desejo.

 

Ás vezes gostava de não desejar,

de esquecer tudo o que faz o coração latejar .

Ás vezes,

apenas ás vezes…

 

José Ferreira

 

 

  ... mas nem sempre, apenas às vezes. Há momentos únicos e bons que nos fazem amar a vida!

- Pensando nesses momentos, percebemos que o conforto para as mágoas do íntimo se encontra nos pequenos gestos e começamos por levantar a cabeça:

 

AMADOR SEM COISA AMADA
 
Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.
 
Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.
 
Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.
 
                    António Gedeão 
 
 

- A vida é, em última análise, uma experiencia e experimentar é ser amador: é amar a dor para saber amar com mais intensidade o alívio e abraçar, com consciência, a cura. É experimentar a intensidade da escuridão para se aprender a amar as propriedades da luz. É escutar para poder aprender a cantar... A vida engloba tudo, até a morte. Tudo faz parte de viver e só vive, realmente, quem experimenta e sente a experiência. Tudo por que passamos fica gravado na alma. Por isso cada pessoa é diferente. As diferenças sentem-se na textura e nas rugosidades da alma. Se procurarmos bem, cada uma dessas rugas, ou saliências, tem uma história, uma lição, um sentimento, uma lágrima, um sorriso... tem vida!

 

- Há quem diga que é realista e se orgulhe. Há quem negue ser sonhador por sentir vergonha. São estes os nossos dias. Mas se olharmos para a história da humanidade podemos, facilmente, concluir que a história não reza grandes feitos de homens realistas. A realidade só avança quando puxada por um sonho. E houve quem sonhasse com uma lâmpada, uma televisão e depois este computador. Houve alguém que sonhou chegar à lua e materializou o sonho na realidade. Mais uma vez: a vida engloba tudo, até os sonhos:

 

SEGREDOS VITALICIOS

 

Olha na palma da tua mão:

vê o futuro que imaginaste de antemão.

Vê que até as rosas têm os seus espinhos,

ouve os teus sonhos que segredam para que não os deixes sozinhos.

 

 

José Ferreira.

 

 

- Agora vamos lá acordar dessa nostalgia e viver (VIVER – não disse sobreviver). A vida não é feita só de tristeza ou momentos de dor. Não vou dizer que é metade/metade. A verdade é que, também eu, ainda estou sensivelmente a meio da minha experiência. ;-)

 

 

- Com toda a alma (as duas metades):

 

 



Se de noite chorares pelo sol, não verás as estrelas

Tagore , Rabindranath.

 


música: Pode Ser...

publicado por ejail às 01:14
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Domingo, 8 de Março de 2009
CR-ISE

 

 

 

 

 

 

(Imagem pilhada da internet, recorrendo ao método de PigJacking).

 

 

 

Toda a gente fala da crise. O mesmo é dizer que não há alguém que não fale da crise: a crise financeira, a crise económica, a crise global, a crise de valores... Ora, foi precisamente a partir deste blog, que a última – a crise de valores - se propagou e acabou por contaminar todo o mundo e partes do sistema solar. Tenho, portanto, que assumir a minha quota de responsabilidade pelo que se está a passar e não deixar o Barack Obama travar esta luta sozinho. Tenho mas não a vou assumir. Vou fazer de conta que não é nada comigo e esperar que algum mártir distraído, ou as próximas gerações, arquem com a culpa e/ou as consequencias.

 

Este parágrafo é inteiramente dedicado ao gourmet. O tema de hoje é, como não poderia deixar de ser: A Alimentação Face à Crise. Comece por servir, para entrada, pequenos quadradinhos de tostas com queijo Limiano, de modo a enquadrar o restante da refeição dentro do Orçamento. De seguida sugere-se uma de duas sopas: sopa da pedra ou caldo cinzento. Apesar de o bacalhau ser hoje um alimento dispendioso pode, facilmente e com algum esforço, ser adquirido a prestações ou, se tiver sorte, num brinde do Expresso e, dessa forma, aparecer* no prato dos portugueses. Recomenda-se, para prato principal, Bacalhau com alguns. Para vocês que querem perguntar, mas têm vergonha, a resposta é sim: sim, o bacalhau pode ser pescado nos mares de Chernobyl ( dá boas postas e é uma agradável surpresa para quem gosta de chupar rabos porque, por vezes, o mesmo bacalhau aparece com dois ou três em simultâneo). Para a sobremesa: sonhos ou, as mais acessíveis e cada vez mais corriqueiras, natas do inferno. Termine a refeição servindo um cálice de Três Velhotes - daqueles cujas reformas ainda estão em escudos – e, para quem for apreciador, um charuto de couve-flôr com brócolos e beringela. Os brócolos são apenas para cortar a acidez e o câncer.

 

Voltando ao assunto pré-gourmet: Se, numa remota e longínqua hipótese, eu quisesse tomar medidas de modo a estancar a crise, que poderia, efectivamente, fazer? A resposta é imediata: roubar as reformas (aos reformados, jamais aos políticos) e entrega-las, com toda a devoção e embrulhadas em forma de esmola, ao Banco Espírito Santo.

 

* consultar, por favor, as condições gerais dispostas no website do mágico da máscara.

 

 

 

ps (post-script - não confundir, por favor, com partido socialista): Na iminência de alguém sentir convulsões para comentar este artigo peço, apenas e solenemente, que o faça com orações gramaticais.

 

Atenciosamente,

ejail.


sinto-me: Um Sapo Barbudo
música: Hotel Rwanda - OST

publicado por ejail às 19:10
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Sábado, 11 de Outubro de 2008
Insanidades da Sabedoria e Descrenças da Fé

 

(imagem retirada da internet)

 

A topografia do cérebro humano é, face à luz das trevas que nos cegam, inconclusiva.

Ora cortam o mal, ora cortam mal – os pensamentos.

A mente é como que uma lâmina lasciva,

Que numa hora traz sossego e noutra hora traz tormentos.

 

E quando a lucidez rompe o véu do sossego e dos tormentos,

Quando a luz dissipa o vácuo em que jazem as trevas.

Quando tudo converge e carrila por momentos

E as ideias se enfunam e deixam de ser escravas:

 

Homem,

Ódio,

Mentira,

Egoísmo,

Morte.

 

(…) para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus.

(I Coríntios 2:5)

 

Deus

Equanimidade

União

Sabedoria

 

Porque quando, no Absoluto, o individuo pensa (ou sente), move-se… num labirinto

E os lúcidos, são aqueles que nele se sabem orientar.

Os que evitam o atrito e o absinto.

São os livres: aqueles que se conseguem soltar e, do sono comum, despertar.

 

E, com regularidade, eis que surge:

Ser ou não ser? Esta é a questão!

Mas eis o que urge:

 

Enquanto muitos se questionam sobre a existência de Deus,

Esses mesmos muitos, não se questionam sobre a pertinência da existência do Homem.

Pois existem cada vez mais demasiados “Eus”,

Enquanto homens de Deus, com grande ligeireza, esmorecem e Somem.

 

ejail.


sinto-me: Humano
música: Knocking on Heavens Door - Bob Dylan
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publicado por ejail às 19:21
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Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008
Analfabeto

 

(imagem retirada da net)

 

Como se escreve sentimentos?

Como se descreve tormentos?

Com que propriedade, com que sapiência?

Como transmitir a própria vivência?

 

Como ler o que não se consegue escrever?

Como imaginar o que não se pode descrever?

Com que audácia, com que poder superior?

Como exteriorizar o próprio interior?

 

Como conhecer a fibra e a carne?

Todos os órgãos do exterior ao cerne.

Distinguir o que é real do que é mito.

Como qualificar a alma e o espírito?

 

Como transmitir cada uma das cores?

Todas as alegrias e todas as dores.

A matéria luminosa e as imagens pretas.

Como separar o trigo das tretas?

 

Todas aquelas diferentes gentes.

Todas as personagens alegres ou pungentes.

Tudo o que se aprendeu e desaprendeu.

Tudo o que se conquistou e se perdeu.

 

Todos os momentos mal guardados.

Todos os suspiros mal amanhados.

Tudo depositado numa pequena algibeira.

Tudo confundido no interior de uma caveira.

 

Como recordar todas as esgrimas?

Como analisar todas as lágrimas?

Como lembrar as poucas riquezas?

Como esquecer as muitas tristezas?

 

Como traduzir cinzas queimadas?

Como interpretar letras abandonadas?

Como desnudar crónicas ardidas?

Como encontrar palavras perdidas?

 

 

ejail

 


sinto-me:
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publicado por ejail às 18:30
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Quarta-feira, 16 de Abril de 2008
Já era tempo de escrever…

Já era tempo de escrever… mas acho que vou esperar pelo acordo ortográfico…


sinto-me: Analfabeto
música: Silêncio

publicado por ejail às 12:09
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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008
Jogadas Mentais

- Ando como que a jogar xadrez com o meu blog.

Não! É mais grave ainda…

- Ando como que a jogar xadrez com a minha vida e tenho, neste estranho jogo de Xadrez mental, um adversário que, a ser, será um Ser que são muitos Seres.

 (Imagem retirada da Internet)

Como um jogador, que move cautelosamente as peças no tabuleiro, eu troco as ideias de lugar na densidade da cabeça. São ideias pesadas, que se esfumam, numa mistura de liga pesarosa e crepitante. São ânsias que procuram saltar para além das barreiras do medo e desejos que lutam para se materializarem num mundo de dúvidas e incerteza. São frustrações que, uma-a-uma, o passar do tempo parece ter calcinado no espírito. São rebeldias que agora são conformismos, fazendo lembrar outros anjos que agora são demónios diluídos nos remorsos. É um espírito quebrado pelas limitações do corpo e da mente.

Será uma estupidez tão grande dizer que me sinto prisioneiro de mim mesmo?

Como o vento que não se vê directamente mas que despenteia os cabelos, o tempo lavra com rudeza as feições nuas do meu rosto. O tempo: essa entidade que se coloca por direito próprio, ou por simples arrogância, acima do banal da tridimensionalidade mundana. O imortal assassinando, com relativa paciência, tudo o que é mortal. Desgastando a vida até ao pó. Mudando-me por fora e alterando-me por dentro. O tempo: conselheiro, agitador, mensageiro que me traz (e me leva) sentimentos e pensamentos. Que me faz, nesta hora, questionar: Como é possível estar vivo e sentir que não vivi? Como é possível sentir que não vivo? Como posso viver sentindo, no íntimo, que não saberei viver?

Talvez a resposta seja, não sei, esperança… Porque a esperança é como a cenoura na ponta do nariz do cavalo, que o faz andar em frente na tentativa vã de lhe deitar o dente. Talvez a resposta venha com o tempo. Há cavalos que conseguem… uns mais cedo, outros mais tarde…

 

Uma boa tarde!

ejail (afectado por uma gripe vírica).


sinto-me: Idiota
música: You've Got A Friend - James Taylor
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publicado por ejail às 11:51
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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008
Não vou estar por aqui mas vou andar por aí!

Costumes, tradições e ritos, seguidos e quebrados de forma ridícula: Emprego, desemprego;

Riqueza, pobreza;

Ladrões que roubam, ladrões que são roubados;

Homens que controlam, desesperados que se descontrolam;

Políticos que ganham, povo que perde;

Promessas que se fazem, promessas que se desfazem;

Polícias que prendem, polícias que são presos;

Médicos que curam, médicos que matam;

Professores que ensinam, professores que assassinam;

Padres que pregam, padres que violam;

Pastores que evangelizam, pastores que engordam;

Fetos que nascem, fetos que morrem;

Almas que se acham, almas que se perdem;

Deus que ajuda, Deus que castiga e se esquece;

Diabo que ama e diabo que depois engana;

Árvores que crescem, árvores que ardem às mãos da inquisição;

Pequeno-almoço, almoço e jantar… e a fome que continua a matar;

SMS, MMS, o contacto que arrefece;

– Merda: isto não tem fim e continua a não fazer muito sentido –

Tempo que sobra, tempo que falta;

Ondas que levam, ondas que trazem;

Cascatas a correr, lagos a apodrecer;

Sapos que se engolem, sapos que se vomitam;

Medo que domina, medo que extermina;

Lápis que escrevem, borrachas que apagam;

Olhos que se cruzam, olhos que não se podem ver;

Sentimentos que se amam, sentimentos que se odeiam;

Altruísmo, egoísmo;

Mãos quentes, mãos frias, mãos de pessoas;

Línguas que ardem, línguas que queimam;

Pénis que entram, pénis que saem;

Lábios presentes, lábios ausentes;

Ataques de coração, ataques ao coração;

Veneno, antídoto;

Vontade de viver, vontade de morrer;

Brain storming, human desert;

Histórias contadas, histórias inacabadas;

Raios partam tudo, raios partam nada.

A vida é uma espécie de morte adiada.

É esta a nossa natureza e na nossa natureza nada se cria, nada se perde, tudo se estraga.

Em suma, se não estou enganado, somos todos ridículos.

 
 
 

Ando com e sem vontade de escrever.

Vai-se lá perceber…

 

“Não vou estar por aqui mas vou andar por aí!” – Santana Lopes.

 

Dúvidas razoáveis…

Atentamente,

ejail.


sinto-me: sei lá...uma coxa de frango?..
música: Atirei o pau ao gato
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publicado por ejail às 14:51
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Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007
Globosfera

Dizem, algumas mentes iluminadas (ou eliminadas), que a blogosfera é um local de engate. Eu acho que sim e, apesar disso, acho que não. Cada um diz o que quer e eu sou contra e a favor.

 

Li, uma vez, num famoso best-seller, que “tudo é vaidade” mas creio que, nos dias de hoje, a frase poderia ser facilmente adaptada para “tudo é engate”. São milhões de pessoas que, a toda a hora, não pensam noutra coisa senão “quem vou eu foder desta vez?”. Isto não acontece na blogosfera, acontece na blogosfera e em todo o recanto deste planeta podre e em decomposição. Tinha razão, o filósofo que empunhava uma lanterna em pleno dia. Tinha razão, quando respondeu à interpelação que lhe dirigiram, sobre o que fazia em pleno dia com uma lanterna, e ele lhes respondeu que procurava um homem. Nunca surgiram tantos ditadores por metro quadrado como agora. A satisfação pessoal é o objectivo supremo do indivíduo nem que para isso tenha que foder meio mundo. Chama-se a isso globalização. Seja de extrema-esquerda, de extrema-direita, ou de extrema-centralidade, seja do raio que o parta, não interessa a doutrina porque o homem é uma merda!

 

Claro que estou optimista e, precisamente por isso, admito que há excepções. Conheço algumas, na blogosfera e fora dela, mas o que eu digo é: excepções, vão havendo…

 

 

PS: Não querendo parecer interesseiro:

Se alguém souber de algum part-time, agradecia que me deixasse uma indicação nos comentários. Não queria, claro, um daqueles empregos em que se ganha 5000 Euros por mês, porque se trabalha muito pouco e ganha-se muito dinheiro. Eu, como bom português de classe média-baixa-que-não-é-chico-esperto-daqueles-que-têm-o-cabelo-empastado-em-gel-e-conduzem-o-carro-que-quitaram-com-o-dinheiro-obtido-num-assalto-ou-num-emprego-que-conseguiram-com-cunhas-ou-favores-menos-claros-que-conduzem-o-carro-com-uma-mão-e-fazem-piças-com-a-outra-enquanto-ultrapassam-pela-direita-a-200-matando-dois-ou-três-pombos-e-ainda-businam, fui habituado precisamente ao contrário: a trabalhar muito como uma besta e a ganhar muito pouco como um otário. Se alguém souber de algum part-time…

 

Melhores cumprimentos,

ejail.


sinto-me: Gastronomicament falando,bosta

publicado por ejail às 18:50
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Terça-feira, 2 de Outubro de 2007
Há Caldo Verde e Bifanas

Não há nada Caldo Verde nem Bifanas! Apeteceu-me colocar “Há Caldo Verde e Bifanas” no título mas o post não tem nada a ver com isso. Já sei que é defraudar as expectativas mas… pensando bem: alguém, ao entrar neste blog, tinha expectativas?..

 

Geralmente só consigo escrever quando estão reunidas três condições essenciais: tenho de estar deprimido, não posso estar demasiado cansado e a televisão não pode estar a passar os comentários do Marcelo Rebelo de Sousa.

 

Houve aí uns dias em que, de facto, eu não andei deprimido. Até queria escrever e fazia de tudo para me deprimir mas, confesso, os meus esforços goraram-se num rotundo falhanço. Alturas houve em que estive quase a atingir um estado Zen de depressão mas, simplesmente, não me conseguia concentrar o suficiente e perdia a pujança antes de consumar o acto. Lamentável e vergonhoso! Até nisso me sinto inútil... Mas palpita-me que, finalmente, terei conseguido.

 

Sinto-me abatido e hoje, particularmente, triste. Sinto uma enorme vontade de metralhar o vazio da folha com o negro das letras e, ao mesmo tempo, deparo-me com um grande cansaço, em forma de bloqueio, que me causa impotência intelectual (talvez não apenas intelectual, mas isso não é tema para aqui e sim assunto para discutir em local próprio). Não sei como traduzir o que me vai na alma. Não sei como explicar, não é fácil. Sinto-me quase como um espirro aprisionado, como um soluço engasgado. É algo, talvez, como aquelas diarreias intestinais que precisam de explodir mas que se deparam com uma irritante e inesperada prisão de ventre. É essa, sem dúvida, a imagem mais apropriada para definir o meu caótico estado de espírito.

 

Mas a verdade é que me sinto deprimido. A verdade é que me sinto cansado. A verdade é que hoje me sinto tão ausente que, se calhar, até podia ouvir o Marcelo Rebelo de Sousa, discursar durante nove horas, com total apatia e indiferença (ou, vendo bem as coisas e pensando melhor, talvez não!). Há certas coisas que não nos matam mas deitam-nos ao chão. Há certas coisas que magoam. Mas eu não me deixo ir abaixo e há, de facto, certas coisas que magoam só que, da mesma forma que magoam, também saram. Da mesma forma que nós caímos também nos levantamos. É só uma questão de tempo. O tempo é, em última análise, como um xamã: um bom conselheiro e um melhor curandeiro. É bem verdade que hoje me sinto muito abatido mas, amanhã, não sei como me vou sentir (apesar de ter fortes suspeitas). Tenho objectivos a atingir, sonhos a realizar e ambições a materializar. Finalmente sei para onde quero ir. Finalmente sinto que, apesar das dificuldades e dos espinhos, trilho o caminho certo. Há que ser (moderadamente) optimista!

 

Peço desculpa a todos os meus (poucos mas bons) leitores pela minha ausência prolongada. Quero que saibam que, neste intervalo de tempo, não deixei de espreitar os vossos excelentes blogs. Por fim, agradeço todos os simpáticos comentários que me deixaram. Não vos mereço e vocês não merecem o fardo de me aturarem.

 

Atentamente,

ejail.


sinto-me: A Precisar De Um Café
música: Silencio

publicado por ejail às 17:55
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Quinta-feira, 26 de Julho de 2007
A Minha Palavra
Há uns tempos atrás (muitos) escrevi um texto abstracto:
 
A vida assume um sem número de facetas. Pode ser comparada a tudo e nada se compara a ela. Parece, por vezes, um grande dicionário, maior que o mundo e infinitamente grande; maior que o Universo. Nesse dicionário, cheio de palavras e de significados, eu procuro uma só palavra. Existem muitas e são mais que os números para as contar. Umas simples e bonitas, outras formais e complicadas, mansas ou severas, quentes ou frias e indiferentes. Procuro uma só. Nunca a escutei, nem li e nunca, tão-pouco, ouvi falar acerca dela. Não a conheço, mas sei que é a mais deslumbrante desse dicionário. Não vou vender a minha alma a uma outra qualquer palavra. Ela só aceita ser comprada e resgatada, da sua árdua e solitária viagem, pela mais bela junção de letras que o caos do universo conseguiu, de forma divina, construir. Não receies, pois não vou cessar a busca. Afinal sou um sonhador e os sonhadores não sabem quando parar de sonhar.
 
Hoje quero concretizar esse texto:
 
Creio ter encontrado a palavra. A palavra formada pela mais bela junção de letras que o caos do universo conseguiu, de forma divina, construir. A palavra: Ana.
 

sinto-me: Enamorado
música: Qualquer Coisa Celestial com Harpas e Banjos

publicado por ejail às 17:47
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Terça-feira, 17 de Julho de 2007
Bom Demais Para Ser Verdade
Coimbra: cidade de despedidas encantadas. Na sua complexa rede de estradas e estreitas ruelas, circulam um pequeno sem-número de autocarros. Movem-se para os lados, para trás e para diante, sem nunca se afastarem muito de um qualquer ponto de gravidade imaginário. São uma espécie de pêndulos urbanos. São como bestas tecnológicas que, aprisionadas, ora engolem os seres humanos, ora os cospem. Tudo é feito com uma extrema rapidez e frieza mecânicas e, as poucas excepções que ocorrem, são quando as presas, quase sempre amorfas e resignadas, discutem entre si para ver quem vai primeiro.
 
Um desses autocarros tem uma particularidade. Aparentemente é um veículo de transporte de passageiros normal: não muito velho, não muito novo. Tem bancos que foram construídos na tentativa de encontrar um compromisso entre o conforto, a usabilidade e a economia. Guincha e oscila, como muitos outros, nas curvas mais apertadas e não trepida menos quando a estrada é de paralelo. Transporta renegados de meia-idade, de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Carrega os velhos, com passes sociais, a quem a sociedade já há muito retirou a esperança e leva os novos para a escola que aguarda para os formatar. Os jovens são inocentes e deixam-se, facilmente, iludir pela esperança e modas passageiras. O autocarro transporta pobres: homens e mulheres, crianças e pedófilos, inocentes, ladrões e assassinos. Ele não escolhe o que lhe dão a comer, apenas come o que lhe é servido. Nele são transportados seres à deriva numa sociedade de castas de falsidade. É um autocarro igual a tantos outros, apenas tem uma singular particularidade que só a mim diz respeito.
Um destes dias, uma qualquer empresa sediada no Porto, vai comprar este autocarro. Alguém o há-de levar para a oficina e dar-lhe um banho de tinta. Alguém o há-de pintar, numa estufa própria, com as cores da nova empresa. Depois vai ser restaurado: o chão, comido pelo arrastar dos passos pesados dos passageiros, condenados com grilhões a vidas efémeras e repetitivas; os assentos encardidos de transpiração mundana; os graffitis com mensagens de alguém que amava e agora, se calhar, até já odeia; o sebo das mãos ainda agarradas aos varões; os fantasmas de Coimbra. Tudo tem de ser limpo e renovado.
 
Um motorista vai ser contratado para conduzir o autocarro. Vai ser colocado um anúncio no jornal e muitos desempregados e desgraçados vão concorrer. O salário não é grande coisa mas, para muitos, vai ser a sua última oportunidade. À medida que várias fazes da selecção vão sendo progressivamente queimadas, o número de candidatos vai diminuindo até que, por fim, um deles será o escolhido. Neste caso em particular não vai haver cunha. O motorista que será escolhido provará ser o melhor. A empresa irá reunir referências junto de antigos empregadores e, todos eles, abonarão a favor do candidato. Vai, posteriormente, iniciar uma acção de formação profissional teórica e prática. Um motorista da casa, mais experiente, vai, depois disso, mostrar-lhe o percurso da carreira que lhe será designada e explicar-lhe as manhas do trânsito local. Tudo tem de ser perfeito. Chega o dia e o autocarro e o motorista estão prontos para saírem à rua.
 
Durante cerca de seis meses e quinze dias tudo parecerá normal. Mas não no dia a seguir. Nesse dia em particular, esse motorista em particular, com esse autocarro em particular, vai sair da garagem e, como de costume, vai encaminhar-se para o respectivo giro. Porém, uma velha furgoneta, em infracção de velocidade excessiva, vai efectuar uma manobra arriscada e colidir com o retrovisor esquerdo do autocarro. A colisão não será suficientemente forte para partir o espelho mas vai chegar para desalinhar o mecanismo de suporte. Na confusão que se seguirá, o infractor vai fugir, não dando tempo ao assustado motorista de registar a matrícula. Este, por sua vez, pegará no telemóvel e ligará para os escritórios da empresa, para o sector das escalas, contando o sucedido. Vão chegar à conclusão que não há nenhum autocarro para efectuar a substituição e, como o retrovisor apenas está ligeiramente desalinhado, o motorista pode seguir viagem. No final do dia, quando o autocarro recolher, os serviços da oficina farão a reparação. O motorista retomará a marcha.
 
Algumas horas depois, o autocarro irá parar, como de costume, numa paragem. As pessoas, como de costume, vão sair e vão entrar, insensíveis à rotina. Sairão e entrarão, como habitualmente, todos os dias úteis - ou todos os dias inúteis. Sairão e entrarão como se, de alguma forma, a humanidade quisesse foder aquele autocarro. O motorista, não vendo qualquer veículo pelo retrovisor desalinhado, dará sinal de mudança de direcção para a esquerda e retomará a marcha. De traz virá um condutor mais apressado e distraído, que não se vai aperceber e, deixando cair o telemóvel, apenas conseguirá pressionar a buzina sem se conseguir desviar e sem conseguir abrandar em tempo útil. Nesse instante, o motorista do autocarro, ouvindo a buzina e apercebendo-se do perigo de colisão iminente, guinará o autocarro, num reflexo irreflectido, para a direita, para cima de uma passadeira. Uma pessoa vai ser colhida…
 
Vejo-me deitado sobre um zebrado. O céu parece cinzento mas, antes da colisão, parecia-me azul. Talvez, o impacto contundente ou a sensação de uma severa fatalidade, tenham afectado os meus olhos e me tenham levado as cores. Apercebo-me que não é só o céu que não tem cores. As pessoas à volta também estão descoloridas. Sinto um arrepio constante e, estranhamente, começo a desaprender a respiração e a sentir uma repentina falta de forças. Sinto a cabeça descair para o lado, sem que tenha poder para a contrariar, e começo a ver imagens, pouco nítidas e antigas, a substituírem as actuais. Sinto os olhos fecharem-se e, apesar disso, cada vez mais, vejo mais imagens. Parecem ser coisas do passado, imagens que já nem me lembrava de ter guardado, imagens de coisas de que não consigo ter a certeza se realmente aconteceram. Tudo parece ter atingido um estranho silêncio sepulcral. É quase espiritual. Mas, nessa falta de sons, uma voz vai-se fazendo ouvir. Uma voz surda que se confunde com o vácuo. Uma voz que, gradualmente, vai ganhando protagonismo face à estática do silencio. Uma voz que soa cada vez mais alto e que, cada vez mais, parece uma gargalhada e um grito irado. Uma voz que diz: “Seres feliz… Era bom demais para ser verdade!”
 
 
Tenho que falar da Ana e não consigo. Porque é uma pessoa única e especial. Alguém que me ensina e ajuda a derrotar o medo de viver. Alguém que surgiu na minha vida de uma forma tão profunda, que parece bom demais para ser verdade. É alguém que me faz olhar para os dois lados, quando atravesso uma estrada. Alguém que não quero perder por que me faz ter vontade de viver, que me faz ter vontade de amar. Alguém que me faz ter um peculiar cuidado com os autocarros. ;-) É alguém que me faz acordar com um sorriso nos lábios, ao invés de uma lágrima no rosto. É alguém que veio trazer ânimo e sentido à minha vida. Alguém que aceita e compreende os meus medos, e me conforta. Alguém que deixa que eu faça o mesmo por ela. É alguém em quem eu começo a confiar e alguém que vai confiando cada vez mais em mim. Uma pessoa bonita que me desperta o desejo e uma pessoa bonita que me desperta a espiritualidade. Não encontro palavras para falar desta mulher. Teriam de ser palavras ainda não inventadas. Palavras virgens, criadas unicamente para serem usadas nesta magnifica pessoa. Estou de beicinho por ela. Quem diria? Logo eu…
 
Ana, eu amo-te!
 
 
Atentamente,
José.

sinto-me: A Despertar

publicado por ejail às 12:25
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Sexta-feira, 13 de Julho de 2007
Glorioso Combatente?
Mais uma batalha perdida. Esta, de forma brutal. Não sei como ainda continuo por aqui. Não sei como ainda continuo na guerra…
 
Estou bastante cambaleante mas que se foda esta merda toda que sinto cá dentro. Tenho que tapar bem, enterrar bem, estes sentimentos. Ocultar cada uma das cicatrizes em carne viva, cada uma das cicatrizes em espírito morto. Esconder cada grito lancinante por debaixo do “Eu Social”. Acho que precisava de vomitar qualquer coisa, não sei... Sinto-me enjoado, carregado, negro e com um peso terrífico sobre os ombros. Sinto-me fraco, um perdedor nato. Bem… esta merda é toda muito interessante mas… tenho mesmo que ir trabalhar…

sinto-me: Mal
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publicado por ejail às 08:18
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Alma Penada
Não sei se hei-de pedir desculpas pela ausência, ou se hei-de pedir desculpas pelo regresso. Não sei nada.
 
Tenho cabeça, tenho braços e tenho pernas. Não tenho felicidade. Tenho coração, tenho fígado, tenho intestinos. Tenho vontade de morrer. Descobri que, no processo do meu fabrico, se esqueceram de colocar a felicidade e no seu lugar, por engano, deixaram a vontade de morrer. Descobri que gosto de sofrer e que, provavelmente, vou gostar de morrer. Eu não sei ser feliz. Não sei, não consigo, não posso… Não encontro uma pinga de felicidade, de alegria, dentro de mim. Tanta morte cá dentro. Tanta dor, tanta angústia… Estou cheio de nós na garganta, cheio de constrangimentos no peito, cheio de trevas na cabeça. Cheio de confusão, cheio de inseguranças.
 
Gostava de ser diferente. Como gostava! Mas, desta morte, não há ressurreição possível. Fecho-me outra vez. Encerro-me, novamente, no meu caixão.
 
- Dor, Angústia, Sofrimento, Trevas, Morte… tiveram saudades minhas? Ah… Vá lá! Afinal foram só uns dias que não nos vimos… Vocês acham que eu vos ia trocar pela Felicidade? Vocês sabem que ela não me ama. Vocês sabem que a felicidade é uma mulher bonita e pretendentes não lhe faltam. Vocês acham que ela se ia interessar por um insignificante deprimido como eu? Eu só tenho amor e tudo o resto são medos. Não tenho mais nada… Morte: estamos cansados… vamos dormir…

sinto-me: Uma Alma Penada
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publicado por ejail às 03:56
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Quarta-feira, 4 de Julho de 2007
BLOG EM POSTas
A forma como aqui coloco as letras, faz-me lembrar aqueles escaravelhos do canal Odisseia, a arrastarem berlindes de merda de búfalo (ou de outro animal de porte igualmente abastado). As letras chegam aqui já sem vontade própria. Chegam cansadas, desacreditadas e desoladas. Eu desapontei-as.
(imagem retirada da internet)
Ultimamente não consigo escrever nada. Nada de jeito, pelo menos. Não tenho talento, não tenho ideias e não tenho vivências. Interiormente sinto-me vazio e – parecendo, mas não sendo redundante - sinto-me oco. Mas, talvez, “vazio” e “oco” não sejam os termos mais felizes para retratar o que se passa cá por dentro. Se fosse só isso... Esse “vazio” e esse “oco” estão preenchidos por uma angústia e uma confusão que me tornam, de todo, improfícuo. Retiram-me toda e qualquer utilidade. Sinto os neurónios dormentes e os neurotransmissores enleados em teias de aranha elanguescentes. Transformei-me, unicamente, numa espécie de prostituto de sentimentos e pensamentos. O blog, por sua vez, tornou-se num simples muro de lamentações e é, cada vez mais, um espaço autista: tenho escrito muito mas, maioritariamente, numa perspectiva de dentro para dentro. É uma escrita fechada com posts demasiado sérios, sisudos, cinzentos e graves.
 
Estou, claramente, abaixo de forma. Nunca mais vou dar nada… se é que alguma vez dei. Estou queimado. Estou, psicossomaticamente falando, fodido. Sinto-me um morto-vivo morto. Acho que já atingi aquele ponto de onde não há como retornar. Acho que, para o meu caso perdido, só há uma última solução de recurso: acho que estou, desesperadamente, a precisar de um relacionamento tórrido.
 
Estou a precisar, talvez, de uma mulher que me levante… a moral.
 
Atentamente,
ejail.

sinto-me: Um Escaravelho

publicado por ejail às 16:08
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Terça-feira, 3 de Julho de 2007
Correntes Invisíveis

(imagem retirada da internet)

 
Meio da tarde. O tempo está deprimido: cinzento, tal qual o meu casaco. No alto planam algumas gaivotas. Aproveitam correntes de rios de vento que, para mim, são invisíveis mas, para as aves, marujos experientes, são dádivas que não escapam ao instinto. Parecem voar sem destino, sem mapa e sem instrumentos, apenas pelo prazer de navegar os céus.
 
Atentamente,
ejail.

sinto-me: Aéreo

publicado por ejail às 16:32
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Segunda-feira, 2 de Julho de 2007
Mar Morto
Este é apenas mais um dos pouquíssimos contos que escrevi. Já tem uns tempos mas hoje deixo-o aqui, porque me recorda que as palavras de nada valem. Um amigo não precisa de falar. Um amigo está presente ou, pelo menos, não abandona. Mas um amigo é, talvez, alguém que não existe. Analisando friamente a questão, creio que, tanto a amizade como o amor, sucumbiram ao mais puro egoísmo. Estou tão cheio de palavras e, no entanto, sinto-me tão só… sinto-me tão cansado… sinto-me a secar. Este conto é uma investigação pessoal pelo campo da pura especulação e imaginação. Nada disto está devidamente documentado. Procuro, neste exercício, descobrir o momento exacto em que morreram a amizade e o amor. Procuro o momento exacto em que o egoísmo triunfou.
(imagem retirada da internet)
 
Mar Morto
 
Mar morto… Era uma vez um enorme mar: imponente, orgulhoso e vigoroso. Morava longe de tudo e tudo o que conhecia era o interior dos seus domínios. Com excepção de uma pequena rocha, situada no seu centro, tudo era coberto pela enorme porção de água. Misteriosamente, por mais altas que fossem as ondas ou por mais cheias que fossem as marés, a rocha era sempre poupada à fúria das águas e mantida à superfície.
 
Num dia, diferente de todos os outros, choveu. A chuva escorregou e penetrou por uma estreita fissura da rocha e tocou uma pequena semente. A semente havia sido transportada acidentalmente por uma ave perdida, num tempo esquecido, durante uma viagem fatídica. Ao toque da chuva, uma pequena flor brotou de um casulo adormecido. O milagre da vida! De dia para dia foi crescendo, tornando-se cada vez mais bonita. Era especial e única naquele mundo agreste. Sozinhos, a flor e o mar, começaram a falar-se e, com o tempo, tornaram-se grandes amigos. E o tempo foi passando… Durante o tempo que passou, os elos de amizade que os uniam foram-se tornando mais fortes e os muitos sentimentos fundiram-se num só e, entre eles, nasceu o amor. Todos os dias, pela manhã, ela abria as suas pétalas e presenteava-o com a sua extraordinária beleza. Ele deixava-se seduzir pelo seu perfume. Era transportado para as mais belas fantasias, onde habitavam os sonhos coloridos pelos desejos femininos da flor.
 
Passaram-se anos e os dias perfeitos e amenos deram lugar a dias quentes e febris. O Sol, moderado, que sempre trouxera a vida, tornara-se numa ameaça para a tenra planta. Atingida pela ira incompreensível do Sol, ela dirigiu-se então ao mar e pediu-lhe uma gota de água doce para que pudesse saciar a sede. Nunca ninguém lhe pedira uma gota de água doce. Mergulhou em si mesmo e procurou no seu interior. Esquadrinhou cada gota do seu corpo à procura de uma que fosse doce. Desesperado, contorceu-se e revirou-se, mas no meio de tanto esforço, ele sabia, para seu desgosto, que a busca havia de ser vã e infrutífera. Não estava na sua génese, não era essa a sua natureza. Quando saiu de si mesmo, o mar voltou-se para a rocha, mas a flor havia morrido e estava deitada sobre a pedra dura. Era como se tivesse adormecido enquanto esperava, tranquila, pelo regresso da vida.
 
Muitos dias nasceram e outros tantos morreram, num genocídio tão rotineiro, que passa despercebido aos deuses deprimidos pela eternidade. Mas nesse intervalo de tempo esquecido, o mar foi secando e acabou por dar lugar a um enorme deserto, e muitas lendas foram criadas a seu respeito.
 
Um dia, muitos dias depois desta história, um respeitado grupo de arqueólogos resolveu investigar e, de uma vez por todas, descobrir se alguma das lendas era verdadeira. Após anos de uma longa e árdua investigação, os cientistas publicaram as suas conclusões numa pequena e desacreditada revista arqueológica. Diz, quem leu, que no texto estava escrito algo parecido com outra lenda: O mar pensou para si – Para quê tanta água, se nem uma única gota serviu para saciar a sede da minha amada? – Chorou de seguida toda a sua água, secou e morreu. No seu coração de pedra nasceu, um dia, uma bela e vaidosa flor cheia de vida. No seu coração de pedra nasceu, um dia, a amizade e o amor. Mas o Sol, ardendo em ciúme, não se compadeceu e roubou a vida à frágil flor. O Sol ficou tão zangado que, ainda hoje, continua a escaldar a rocha e as areias de um deserto vivo, o leito de um viúvo mar morto…
(imagem retirada da internet)
Atentamente,
ejail.

sinto-me: Solitário

publicado por ejail às 19:30
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Domingo, 1 de Julho de 2007
Poeta Maluco
Era uma vez um poeta: feiticeiro das palavras e mágico dos sentimentos. Um mau escritor que, um dia, perdeu as rimas. Trazia-as, algures espalhadas dentro dos bolsos, juntas com os trocos.
 
Um poeta não sabe nada, está sempre a aprender. Deita-se com a luz das estrelas e levanta-se com o chilrear dos pássaros. Não tem idade: não é velho, nem é novo. Não é nada. Existe apenas quando quer, quando sente o dever de existir - embora, às vezes, queira existir e não saiba como. É algo que não pode ser: desaparece no meio de si e tenta aparecer no seio dos outros. Mas, isso, é só porque é um solitário. Não é cobarde, mas chora como uma criança e ri como um garoto - embora, ultimamente, não consiga encontrar motivos para sorrir. É um puto das ruas, descalço e de cara suja. Um renegado de alma lavada, de alma incompreendida.
(imagem retirada da internet)
A estrada, sabe-o bem, não foi feita para ser percorrida. Foi construída para ser estudada. Evita caminhar por ruas muito percorridas. O caminho foi calcetado para jogar à bola e os campos para dançarem ao sabor dos caprichos do vento. Uma pedra solta é para ser lançada ao mar, ou ao rio. Não importa para onde, desde que seja lançada para o mais longe possível, desde que seja arremessada, com todas as forças, para o âmago do infinito. A chuva são lágrimas de poetas, irmãos que pereceram nas inúmeras batalhas, e se fundiram no Absoluto. O Sol é, por si só, um magnífico poema. Um poeta compreende o ciclo da árvore: a árvore, que no Verão traz a sombra, é a mesma que no Outono dá os versos. Versos: estrofes secas, outrora viçosas, que tombam na manta morta como folhas gastas pelo uso do tempo. A Primavera é a vida em flor e o Inverno o seu fiel cobertor. O frio e o calor são as suas roupagens: um poeta não é morno - embora possa estar adormecido.
 
De dia, ou de noite, há sempre um poeta acordado e pronto a sonhar.
 
Era uma vez um poeta que, por algum tempo, vai desaparecer. Um sofrível escritor que se vai ausentar dentro de si. Talvez só por algumas horas, ou alguns dias…
 
Atentamente,
ejail.

sinto-me: Bêbado (mesmo, acho eu)
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publicado por ejail às 15:45
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